Por David Sousa – Analista de Mercado
A tensão entre EUA e Irão é um gatilho clássico de volatilidade porque aumenta o risco percebido num dos maiores “gargalos” do comércio mundial: O Estreito de Ormuz. Para os mercados, o ponto-chave não é apenas “se há interrupção”, mas o prémio de risco que passa a ser incorporado nos preços assim que o cenário se deteriora.
No petróleo, o mecanismo é directo: mais risco em Ormuz significa maior probabilidade (mesmo que baixa) de disrupção no fluxo de crude e produtos refinados do Golfo. Essa probabilidade eleva o prémio de risco, acelerando oscilações no Brent/WTI. Mesmo sem quebra física de abastecimento, a curva reage por antecipação, e o efeito propaga-se a combustíveis e a custos industriais.
No shipping, o impacto chega por três canais quantificáveis: bunker, seguros e comportamento operacional. Com crude e derivados a subir, sobe o custo do combustível marítimo, pressionando o custo por milha e levando a ajustes de BAF (sobretaxa de combustível). Em paralelo, cresce o custo do risco: prémios de seguro, possíveis “war risk surcharges” e maior exigência de retorno por parte de armadores expostos a áreas sensíveis.
Nos contentores, Ormuz não é o corredor principal Europa–Ásia, mas a tensão não fica “local”. Serviços com escalas no Golfo, feeders e cadeias que dependem de hubs regionais podem sofrer alterações de rota, buffers de tempo e reprogramações. Em termos de mercado, isto traduz-se em fricção adicional: aumento de custos unitários, maior dispersão de transit times e, em momentos de procura firme, pressão ascendente sobre fretes por efeito de capacidade efectiva reduzida (navios fora de rotação, tempos maiores, reposicionamentos).
Ormuz funciona como um “ponto de falha” sistémico. Quando a tensão EUA–Irão sobe, o petróleo reage primeiro via prémio de risco; depois, o transporte marítimo absorve o choque via combustível e custos de risco. Para contentores, o efeito é menos imediato do que nos petroleiros, mas tende a aparecer na forma mais típica de 2020s: sobretaxas, volatilidade de transit time e pressão incremental sobre a capacidade disponível.
O início de 2026 marca mais uma fase de gatilho clássico EUA – Irão com a nuance da situação política no Irão estar num ponto em que uma mudança pode acontecer e com isso, uma alteração sem paralelo na região e com uma administração norte-americana mais actuante na sua política exterior.

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