sexta-feira, 21 de julho de 2017

"Parar a pesca da sardinha 15 anos é um absurdo"

Carlos Sousa Reis, biólogo e investigador, diz que recomendação do Conselho Internacional para a Exploração do Mar de parar a pesca da sardinha durante 15 anos não faz sentido. E que não vai resultar.


Um “absurdo” e uma “leviandade” que, no limite e a ser posta em prática, vai atirar para o desemprego uma geração inteira de pescadores, tornar obsoleta uma frota especializada de mais de 100 embarcações, e alterar profundamente os hábitos alimentares dos portugueses. Eis o que Carlos Sousa Reis, biólogo, professor universitário e investigador especialista em Pescas, Ecologia Marinha e Recursos Vivos Marinhos, tem a dizer sobre a recomendação de parar de pescar sardinha durante 15 anos que o Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES) apresentou recentemente à Comissão Europeia como solução para a reposição do stock no mar ibérico.
Ao Observador, o especialista, que foi vice-presidente e presidente do Instituto Nacional de Investigação das Pescas (INIP) e do Instituto Português de Investigação do Mar (IPIMAR) durante uma década, garante que a medida, que não foi ainda aprovada, não faz sentido e não vai resultar. Essencialmente porque negligencia os principais factores que, desde 2006, têm feito com que exista cada vez menos sardinha em Portugal.
O ciclo de vida da sardinha são 5 ou 6 anos. Quando falamos em suspender as pescas durante 15 anos estamos a falar em três ciclos de vida. Em que é que isso resolveria o problema? Por que não parar durante 150 anos? Mais vale dizer que os portugueses estão proibidos de comer sardinhas.”
De acordo com Carlos Sousa Reis, o primeiro e maior responsável por a população de sardinha estar tão diminuída é o homem. Além da poluição das águas, o biólogo aponta o dedo às barragens: “A primeira coisa que se devia fazer era acabar com todos os açudes e hidroeléctricas que não estão a produzir nada. Devíamos destruir barragens, como a Noruega fez. No total, entre açudes feitos em valas, mini-hídricas e grandes barragens, temos cerca de 800 retenções de água no país. Mais um vizinho com 180 barragens, Espanha é só o quinto maior país do mundo em número de barragens”.
O que tem uma coisa a ver com outra? Tudo, garante o especialista: com a retenção em barragens, as águas dos rios deixam de correr livremente para o mar, pelo que os nutrientes e sais minerais (que uma vez na água salgada e em contacto com a luz do sol se transformam em fitoplâncton e em zooplâncton) de que as sardinhas precisam para se desenvolverem, ainda em fase larvar, também ficam pelo caminho. “Se não tiverem nutrientes, as larvas não se conseguem alimentar e morrem“, explica.
Há mais: como os sedimentos também se depositam no fundo das barragens, há cada vez menos areia junto à orla costeira, o que também dificulta a vida da sardinha na fase mais incipiente, que é atirada pelo agitação marítima para longe — e aí, diz Sousa Reis, é que os níveis de alimento baixam radicalmente para zero.
E os predadores naturais da sardinha? Ninguém fala deles? Temos um acordo baleeiro desde 1986 — e ainda bem–, que fez crescer exponencialmente as populações de golfinhos na costa portuguesa. Como já não têm predadores naturais, hoje há uma superpopulação de golfinhos, que se alimenta de sardinhas e outras espécies. Mas ninguém se atreve a avaliar isso”, diz o especialista.
Apesar de dar a entender que parte da solução para o problema da falta de sardinha — a que também não é alheio o aquecimento global, que afecta directamente os níveis de salinidade e de temperatura da água — pode passar pelo controlo das populações de cetáceos, Sousa Reis diz que não arrisca sugerir tal medida, necessariamente impopular junto de ambientalistas e defensores dos animais.
“Uma vez aconselhei um senhor ministro da África do Sul sobre a necessidade de os cientistas começarem a estudar formas de controlar as populações de focas no país, que estavam cada vez maiores, sobretudo junto à Cidade do Cabo, chegavam até a atacar os pescadores. Acontece que foi dizer isso para os jornais e foi despedido no dia seguinte. Este problema com as focas existe também no Canadá, na Gronelândia, é um problema real, mas há coisas que não se podem dizer, porque caem mal. Percebo isso. Mas também acredito que há-de chegar uma altura em que vamos ter de decidir: ou o homem ou os outros.”
Fonte: Observador

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