sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Luz solar é solução para destruir antibiótico em aquacultura marinha


Por vezes a solução de um problema pode estar mesmo à frente dos olhos. Neste caso, uma investigação do Departamento de Química e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro demonstrou isso mesmo. A luz do Sol é a fonte e com ela pode ser possível eliminar o antibiótico presente nas águas de aquacultura marinha, que entram através da alimentação dos peixes cultivados em tanques.

Para a criação de peixes em sistema de aquacultura é necessária a aplicação de determinadas substâncias químicas, tendo em vista eliminar doenças. Entre essas substâncias está um antibiótico de nome oxitetraciclina (OTC). 

oxitetraciclina é utilizada na aquacultura e serve para combater uma grande variedade de infecções nos peixes, como explica a investigadora Joana Leal, da Universidade de Aveiro.

É um sistema em rede, no qual diversos tanques com aquacultura activa estariam simplesmente em contacto com a luz solar.

Segundo Joana Leal, o teste laboratorial consistiu na exposição à luz solar de um tanque cheio de água, com a presença de composto antibiótico diluído (4mg/litro).

Água do mar que, após uma exposição de 21 a 25 minutos à luz solar e sempre ao nível médio das águas marinhas, apresenta uma diminuição em cerca de 50 por cento da presença do fármaco (meia-vida). 

"A meia-vida é precisamente o tempo que demora a concentração (antibiótico) a degradar-se a metade, isto é, obtermos 2mg/litro nas águas", refere a investigadora.

Joana Leal explica que os resultados podem ainda ser amplificados caso a exposição solar seja maior. 

O resultado citado pela investigadora também tem em conta a posição geográfica portuguesa, que pressupõe a exposição solar a uma latitude de 40 graus norte, durante o verão. 

Até agora a remoção antibiótica era geralmente feita com recurso à difusão de ozono nas águas - um método caro, pouco eficaz e gerador de compostos perigosos para a saúde, quando se trata de água salgada. O trabalho da equipa de investigadores da Universidade de Aveiro, realizado pela doutoranda Joana Leal, sob a orientação científica de Valdemar Esteves e Eduarda Santos, permitiu concluir que, em alternativa, o antibiótico pode ser eficazmente destruído com um recurso simples e gratuito: a luz do Sol.

A investigadora Joana Leal diz que, apesar de o espectro luminoso do Sol ser composto por múltiplas frequências, é o seu todo que fornece a combinação exacta para a degradação antibiótica.

"Não é só a radiação ultravioleta. A radiação solar contêm apenas cinco por cento da radiação ultravioleta. Grande parte da radiação solar é visível (50 por cento). No caso da amostra é colocá-la à luz solar e deixá-la lá estar".

Antibióticos em aquacultura marinha

Apesar da utilização de antibióticos na aquacultura portuguesa ter decrescido nos últimos anos, o oxitetraciclina (OTC) continua a ser um dos poucos antibióticos autorizados no país para esta finalidade. O produto que é administrado através da alimentação

Os produtores optam cada vez mais por medidas de prevenção como a vacinação.

Há, no entanto, países em que o uso de antibióticos neste tipo de cultura é elevado e sem uma malha apertada de controlo.

O que, e de acordo com os investigadores da Universidade de Aveiro, "incrementa a potencialidade de aplicação da metodologia" proposta. 

O principal prejuízo decorrente do uso deste ou qualquer outro antibiótico, garantem os investigadores do Departamento de Química e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da UA, “tem a ver com o aumento da resistência bacteriana que a sua eventual libertação no ambiente” pode propiciar.

Esta é uma investigação com resultados práticos e de baixo custo, já publicada no último número da Environmental Pollution, da editora Elsevier, uma referência mundial na área da química aplicada.

Faça-se luz

Houve já várias tentativas de eliminação do factor antibiótico das águas.  Muitos aquicultores recorrem à remoção do fármaco, na água doce, através da ozonização das águas. Uma técnica de oxidação química que tem como agente oxidante o ozono (O3) produzido a partir do ar, do oxigénio puro ou da água altamente pura.

Contudo, apontam os investigadores, "em sistemas de aquacultura marinha a aplicação desta metodologia é limitada pela formação de subprodutos perigosos resultantes da interacção do ozono com os iões da água salgada". 

Para evitar tal situação, "as concentrações de ozono têm de ser mais baixas, o que diminui a eficiência deste processo na remoção da OTC de águas de aquacultura marinha".

Daí o método proposto agora pela UA para a degradação da OTC, através da luz solar de forma "simples e de baixo custo, com demonstrada eficiência, principalmente em águas de aquacultura marinha". 

ETAR podem vir a usar foto-degradação

Este sistema ecológico e simples, através da foto-degradação de compostos orgânicos, nos quais se enquadram os antibióticos, tem vindo a destacar-se. 

Contudo, apontam os investigadores, "os bons resultados obtidos com esta metodologia e este antibiótico não podem ser extrapolados para outros antibióticos". Isto porque os comportamentos, face à mesma metodologia, podem variar em função das propriedades físicas e químicas que os caracterizam e da constituição da própria água. 

Mas a aplicação desta metodologia não está posta de parte como solução para a degradação de outros antibióticos cujos resultados deverão ser avaliados caso a caso. 

Também devido ao potencial de aplicação e relativo baixo custo, os investigadores antecipam que "esta é uma metodologia que poderá ser aplicada a outro tipo de indústria, por exemplo, a estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), que são um dos principais focos de acumulação de antibióticos e outros compostos".

"Para já, o projecto continua em análise, referindo a investigadora Joana Leal que os produtos resultantes da foto-degradação do antibiótico OTC não apresentam actividade biológica, isto é, não criam resistência, nas estirpes estudadas (Escherichia coli, Aeromonas e Vibrio). Mas ainda não se conseguiu provar se surgem ou não, a posteriori, compostos com toxicidade, ou seja, se os foto-produtos são inócuos."

Fonte: RTP

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