sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Viagem histórica. O primeiro grande navio a cruzar o Ártico


As alterações climáticas abriram a Passagem do Noroeste e um grande cruzeiro com cerca de 1700 pessoas a bordo já se fez ao mar... e aos gelos. Há muitos críticos deste novo luxo 
Já atravessaram o estreito de Bering, e no último fim de semana acostaram a Ulukhaktok. Esta pequena aldeia de Nunavut de 400 habitantes, no Alasca canadiano, marca, justamente, o início da etapa mais ansiada - e também mais perigosa - da viagem do Crystal Serenity, o primeiro grande navio de cruzeiros, com 13 andares e capacidade para 1700 pessoas (incluindo mais de 650 tripulantes), que se aventura no oceano Ártico através da rota Northwest Passage (a Passagem do Noroeste), antes só acessível a quebra-gelos e navios mais pequenos. A nova rota é uma consequência do degelo oceânico naquela região polar, causado pelas alterações climáticas. Mas esta viagem de estreia do Crystal Serenity é tudo menos pacífica. Meticulosamente preparado ao longo de três anos, o cruzeiro largou de Anchorage, no Alasca, no dia 17 de agosto e tem chegada prevista a Nova Iorque, do lado oposto da América do Norte, a 17 de setembro, depois de atravessar todo o Ártico, tocar a Gronelândia, Boston e Newport, em Rhode Island. Mas a etapa crucial, afinal o principal destino deste cruzeiro que prometeu aos seus quase mil passageiros avistamentos de ursos-polares, de morsas e de baleias, é a da travessia da Passagem do Noroeste, que está agora a iniciar-se e onde os perigos, sob a forma de gelos submersos ou eventuais tempestades, são uma possibilidade muito real. Por mais seguro que o Crystal Serenity seja, não é um navio construído com o objetivo de fazer face aos gelos do Ártico. Por isso, a preparação da viagem levou cerca de três anos e a empresa proprietária do navio apostou tudo na segurança, incluindo no aluguer de um pequeno quebra-gelos equipado com dois helicópteros, que acompanha a navegação do princípio ao fim, para o que der e vier. Há, no entanto, quem critique a decisão de fazer este cruzeiro por motivos de segurança, como o antigo comandante da marinha de costa Robert Papp, actual representante especial dos Estados Unidos para o Ártico, que à Radio Canada International (RCI) se mostrou preocupado em relação à capacidade real de reacção a um acidente com um navio que transporta 1500 passageiros, numa zona onde o socorro é dificultado pelas suas condições extremas. E, se a segurança é uma questão, não é a única. Na outra face da moeda estão os problemas ambientais e o impacto que uma travessia deste género pode causar numa região do planeta que até agora tem estado salvaguardada das intromissões humanas pelas duras condições que a caracterizam. Que impacto terá na vida selvagem local, perguntam-se ambientalistas e cientistas, preocupados não apenas com esta viagem em concreto, mas com as portas que ela pode abrir a cruzeiros regulares na região. Está previsto, aliás, que o Crystal Serenity repita o cruzeiro no verão de 2017. Um dos cientistas que colocam a questão é Michael Byers, investigador no Ártico e professor na Universidade de British Columbia. "Quando penso na possibilidade de dezenas de grandes navios de cruzeiro virem a atravessar o Ártico canadiano todos os verões, fico preocupado", afirmou à RCI. "Preocupo-me, por exemplo, com o impacto de um eventual derramamento de combustível, ou com os efeitos do ruído do navio nos mamíferos marinhos, como as morsas ou as baleias", sublinha, notando que os benefícios económicos deste tipo de cruzeiros para pequenas comunidades humanas locais não são relevantes. Outra voz que se fez ouvir foi a da WWF, através de Elena Agarkova. Aquela dirigente ambientalista analisou os possíveis impactos da viagem e explica que o navio está obrigado, por exemplo, a fazer os seus despejos de águas residuais a pelo menos 12 milhas náuticas ao largo da costa, para evitar a poluição nas comunidades costeiras. No entanto, afirma Agarkova, citada no jornal online irlandês The Journal, "esta viagem é simbólica das mudanças rápidas no Ártico, e não dispomos hoje dos regulamentos necessários para reduzir os riscos [deste tipo de atividade] para a vida selvagem e as comunidades humanas na região, nem a capacidade necessária para responder a um eventual acidente". Menos preocupados estarão os cerca de mil passageiros a bordo, que pagaram entre 18 mil euros e 153 mil euros por cabeça, mais um seguro obrigatório de 45 mil euros para poderem participar nesta viagem inaugural. "Os bilhetes esgotaram em 48 horas", assegurou o comandante do navio, o norueguês Birger Vorland, ao canal local KTVA Alaska. Também para este homem do mar, que há três décadas comanda navios de cruzeiro, esta é uma viagem muito especial, um pouco como um tributo ao seu pioneiro compatriota, Roald Amundsen, o primeiro que fez esta travessia, entre 1903 e 1906. Mas, nota, "nós vamos fazê-la em 32 dias e com muito mais conforto". Fonte: DN

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