terça-feira, 12 de julho de 2016

Pessoas com deficiência fazem surf na Caparica


"Anda. Não tenhas medo. Pões os braços assim (estendidas para a frente) e depois deslizas", dizia Paulo Moreira, enquanto exemplificava para Ana Clara Cruz, que ia ter a sua primeira aula de surf com os voluntários da Associação Surf For All, na Praia do Castelo, na Costa da Caparica, em Almada. Paulo e Ana são dois dos mais de 30 utentes portadores de deficiências cognitivas que esta quinta-feira participaram na quinta edição do maior evento de surf adaptado da Europa. "Este ano devemos bater o recorde, com uma média de cerca de 120 participantes", explicou ao CM Hugo Maia, presidente da associação e atleta da Selecção Nacional de Basquetebol em Cadeiras de Rodas. O evento, que começou na passada quarta-feira e terminou na sexta-feira, visou "proporcionar o prazer do deslizar nas ondas a pessoas portadoras de deficiências motoras e cognitivas. Mas também passar a energia que o mar dá e todo o ambiente que se vive", sublinha o atleta. "O maior desafio para estas pessoas é vencer o medo inicial, depois adaptam-se bem à água e alguns já voltam todos os anos", conta Tiago Rodrigues, surfista, empresário e um dos 35 instrutores voluntários, que das 9 horas da manhã às 16 horas ajudaram pessoas como o Paulo e a Ana a surfar. Cada um dos alunos especiais conta com a ajuda de três a cinco instrutores devidamente preparados para lhes prestar assistência. "Temos formação na área da saúde, da fisioterapia com as instituições que nos enviam os seus utentes, porque temos de estar preparados para lidar com todas as situações. Este ano recebemos participantes de 12 instituições e muito gratificante ver como todos os anos a adesão é maior", afirma Tiago Rodrigues.

O evento tem vindo a crescer e isso só tem sido possível graças aos patrocinadores e ao apoio da Câmara Municipal de Almada. É, aliás, a parceria com a autarquia que torna possível que Tiago Rodrigues, através da sua escola de surf Duck Dive, proporcione aulas de surf adaptado, e gratuito, a utentes de várias instituições todas as quintas-feiras, de Maio a Outubro. A emoção de pegar numa prancha, entrar no mar e apanhar uma onda era visível no rosto daqueles alunos especiais, a maioria da Fundação AFID Diferença. "Na água, sente-se assim… suave. Gosto de estar deitado, de barriga na prancha, ainda não consigo ficar de pé", explica Paulo Moreira, de 33 anos, que, na retaguarda, teve a ajuda de Joana Sales, jornalista do CM e uma das voluntárias. Também Luís Ferreira, 29 anos, contou que esta foi a "segunda vez" que fez surf e que diz nunca "ter tido medo". Já Ana Clara Cruz, 38 anos, depois do incentivo dos amigos, vestiu o fato e entrou na água. "Tive um pouco de medo, mas depois gostei. Quando a onda veio deitei-me na prancha. Queria ficar de pé, mas ainda não consigo", conta. Paulo Gomes, 76 anos, professor de natação voluntário na Fundação AFID Diferença, contou ao CM que alguns destes surfistas são seus alunos e que há três anos vivem este dia com uma imensa alegria. "É muito bom para eles esta oportunidade. Estão perfeitamente adaptados ao meio aquático, respeitam a água e não têm medo. Para eles é uma sensação de liberdade", revela. Uma sensação de liberdade por dentro que se traduziu em sorrisos de alegria por fora e que na passada quinta-feira encheram a Praia do Castelo na Costa da Caparica.

Fonte: CM

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