Longe vão os tempos em que os Estivadores possuíam rótulos desadequados perante a sociedade. Hoje são profissionais mais preparados, melhor capacitados e com outra vivência diferente do sector.
Mas contudo, ainda há coisas que infelizmente não mudaram.
O trabalho duro seja por debaixo do sol extenuante ou durante noite fria e chuvosa, de espinha curvada, desgastando o corpo, sob o dever e a pressão, num regime interminável de turnos sempre com a mente sempre ao rubro, pelo menos durante a altura em que se trabalha.
Continuam a estar cansados de ouvir as mesmas ladainhas de sempre, das desculpas do costume e de ler nos meios de comunicação sobre o sector, alguns "experts" que vivem confortavelmente à conta das suas análises enviesadas e fúteis, desprovidas de substância, mas muito fortes na maledicência daqueles que fazem "a roda girar" como é esta classe.
Fartos de ver nas empresas para o qual trabalham, dos manifestamente incompetentes, sem conhecimento ou aptidão reconhecida, que vivem em cargos mantidos não por conta do mérito ou da competência, mas porque são os "yes man", completamente submissos e obedientes, que descuram o seu papel e as relações laborais em detrimento do seu bem-estar pessoal, sem ter em atenção os projectos.
Não são os únicos nessas mesmas empresas. Ainda existem os paladinos da utopia, que apresentam num qualquer papel machucado, soluções simples para problemas complexos, mas que na realidade, não passam para a prática, sobre forma de proposta séria para confrontar os desafios, que nesta altura, não serão poucos.
Ainda há quem se preocupe com o respectivo projecto portuário, e que possuem boas intenções no desenvolvimento de projectos e das relações interpessoais, mas raramente sobrevivem perante a soberba de alguns que desejam maquilhar a própria incapacidade de resolver e fazer evoluir os projectos, e não gostarem de que haja que se destaque por manifesta capacidade e mérito.
De certa forma, sim, estão fartos desse marasmo que se vê nestas empresas, dos "fait divers" que se ouvem, da toxicidade do ambiente em que vivem.
Um sector portuário, que infelizmente, para mal dos pecados, é um pouco,o reflexo do país, onde a nossa classe política anda com casos e casinhos, em conflitos inúteis, em que a tentativa de chegar ao poder é objectivo final, e pelo meio apresentam propostas que são inócuas ou nem passam, de ridículas que são. Não dão importância aos Portos. É a degradação do tecido da Democracia, é o pão que se come todos os dias.
Não se dá voz aos trabalhadores e tenta-se suprimir os seus representantes.
Parceiros sociais é um chavão que se utiliza em frases feitas e documentos, só para se parecer que há uma certa espécie de diálogo social. Queimam-se trabalhadores e ideias como se nada fossem. Persegue-se silenciosamente e pela calada, quais tempos antigos antes da revolução.
Uma classe cansada e desgastada de ver quem tenta tirar a esperança, quem tenta os diminuir e ver que a seriedade de propostas credíveis que vão para o lixo, só por causa de agendas ocultas e obscuras.
Fartos, quiça, de uma arrogância e prepotência de alguns que querem impor essas mesmas agendas sobre as maiorias.
Enjoados de eventos, conferências, seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos. Que se repetem que nem cassetes cheias de bolor de ideias tão velhas e gastas que são, sem entender que são novos tempos e não da outra senhora, em que ter um salário digno e um horário decente para conciliar com a família não é uma fatalidade.
Falam de modernidade, mas não passa das mesmas ideias com vestes mais apelativas.
Entretanto os restantes, andam cansados, enjoados, desgastados e fartos.
Tem de haver mais esperança para quem trabalha nos portos. Tem de existir força e união, porque só assim há esperança, só assim existirá futuro para um sector que se pretende de vanguarda e moderno.
Produtividade não pode ser à custa dos trabalhadores, tem de haver melhorias na falta de eficácia nos processos, na organização e de ver as coisas em conjunto e não de forma unilateral.
Perdendo a mentalidade bafienta, que confunde progresso com retiradas de direitos, substituindo lideranças que vêem pessoas como números, é que se poderá pensar que haverá algo mais, uma esperança diferente, e não o amargo da tirania encapotada em pleno século XXI.
"Açúcar no cais do porto
É na estiva, é na estiva
Ás vezes me sinto morto
A alma morta, a carne viva".

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