Por Carlos Carvalho – Especialista em Relações Internacionais.
A Europa atravessa um momento de profunda metamorfose estratégica, onde a legítima pressa em desvincular-se da chantagem energética da Federação Russa a empurrou para uma encruzilhada perigosa. Ao longo de décadas, o Velho Continente alimentou-se de gás barato vindo de Leste, ignorando os riscos geopolíticos inerentes a tal proximidade; porém, ao cortar esse cordão umbilical após a invasão da Ucrânia, a União Europeia parece ter apenas trocado de senhor.
A actual corrida ao Gás Natural Liquefeito (GNL) proveniente dos Estados Unidos da América configura-se como uma nova forma de dependência, talvez menos hostil no plano diplomático, mas igualmente arriscada no que toca à soberania económica. A substituição do gás por gasoduto pelo GNL transportado em navios-tanque trouxe consigo uma volatilidade de preços sem precedentes, uma vez que este mercado é regido por contratos de curto prazo e pela especulação global. Se outrora a estabilidade era garantida por acordos de longo curso com Moscovo, hoje as empresas e famílias europeias estão à mercê das flutuações de mercado e da apetência de exportação de Washington.
Esta vulnerabilidade é acentuada pelo facto de a Europa se ter tornado o destino prioritário das cargas norte-americanas, criando um cenário onde qualquer alteração na política interna dos EUA ou um aumento da procura na Ásia pode deixar os portos europeus vazios ou com preços incomportáveis. Acresce a esta problemática o paradoxo ambiental: O GNL tem uma pegada ecológica significativamente mais pesada devido aos processos de liquefacção e transporte transatlântico, o que colide frontalmente com as ambiciosas metas de descarbonização da União. O investimento massivo em infraestruturas de regaseificação corre o risco de se tornar um “activo tóxico” no futuro, prendendo a economia europeia aos combustíveis fósseis por mais tempo do que o desejável.
De forma clara, afirmo: A liberdade energética que a Europa tanto apregoa continua a ser uma miragem, tendo-se apenas operado uma transferência de hegemonia que mantém o continente refém de interesses externos, pondo em causa a sua autonomia estratégica a longo prazo.

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