quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Santa Maria. Primeiro acto de pirataria naval do século XX


He
Henrique Galvão liderou o primeiro sequestro naval do mundo moderno ao tomar pelas armas o Santa Maria
1961 foi o annus horribilis do presidente do Conselho de Portugal, António de Oliveira Salazar, cuja ditadura foi desafiada a 23 de Janeiro com o sequestro do paquete Santa Maria, pelo capitão Henrique Galvão, em Fevereiro com a revolta da UPA em Angola e em Dezembro com a invasão da Índia portuguesa por tropas da União Indiana.
O objectivo de Henrique Galvão com a sua Operação Dulcineia (sequestro do luxuoso paquete Santa Maria), com o apoio do Directorado Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), era chamar a atenção do mundo para a longa ditadura portuguesa e, em simultâneo, denunciar o regime ditatorial de Francisco Franco em Espanha.
Por outro lado, esperava que as províncias ultramarinas de Angola e Moçambique se rebelassem com ele contra o regime colonial português. Os 24 revoltosos, alguns galegos, embarcaram como vulgares passageiros no porto venezuelano de La Guaira e outros em Curaçau. Todos transportavam armas na respectiva bagagem. Na manhã do dia 23 de Janeiro atacaram a ponte de comando do Santa Maria. Embora a intenção operacional fosse a tomada pacífica do transatlântico, com os seus 600 passageiros e 370 tripulantes, o terceiro oficial (nesse momento de quarto na ponte de comando) resistiu ao assalto e foi abatido a tiro. Vários tripulantes foram feridos no confronto.
Depois de capturarem o paquete, então denominado Santa Liberdade, os revoltosos impediram todas as comunicações do navio com o exterior e rumaram a embarcação a sudoeste, em direcção a Angola.
Após um jogo do gato e do rato durante 30 dias de busca marítima pelo Atlântico Sul, o Santa Maria foi localizado por navios de guerra americanos. Os revoltosos desviaram o navio para o Recife, Brasil, sob escolta desses navios de guerra. No Recife renderam-se às autoridades brasileiras e foi-lhes concedido asilo político. Henrique Galvão tentou justificar o seu acto com o livro "Santa Maria: A Minha Cruzada por Portugal".
Galvão, que fora apoiante de Sidónio Pais e do salazarismo, administrador colonial e responsável pelas exposições coloniais do Porto e do Mundo Português em Lisboa, rompeu com Salazar por razões pessoais e por discordar da sua política ultramarina. Declarava-se um visionário e dizia que eram esse tipo de homens, e não os burgueses, os autores de todas as revoluções.
Durante o tempo em que "governou" o navio, Galvão chamou a atenção do mundo, conferenciou com emissários dos Estados Unidos e do Brasil.
Muitos historiadores consideram que os EUA, o Brasil e o Reino Unido estabeleceram um perigoso precedente diplomático com a sua atitude ambígua ao não condenarem as acções de Galvão no mar, e que isso foi uma das primeiras expressões de relativismo moral e de politização que predominaram na década de 60.
À época, um jornal suíço escreveu que o caso não era saber se o regime de Salazar "merecia a simpatia e assistência" mas se, ao contrário, a "disciplina marítima fora quebrada".
"Paradoxalmente, o sequestro do navio foi copiado como modelo para desvios terroristas da actualidade. Nesse sentido, o Santa Maria abriu caminho aos actos de pirataria dos anos 70 e 80, nomeadamente dos ataques contra o paquete Achille Lauro e numerosos outros actos de terrorismo internacional", escreveu numa tese o investigador Luis Miguel Solla de Andrade Peres.
Ao considerar o acto político, o Ocidente abriu as portas a acções semelhantes, como o sequestro por terroristas venezuelanos do cargueiro Anzoategui ou do paquete italiano Achille Lauro por terroristas palestinianos em 1985.
O perfil de Henrique Galvão foi sempre definido pelo seu colonialismo e anticomunismo e, depois de 1951, pelo anti-salazarismo. O diletante aventureiro romântico português morreu no exílio, no Brasil, em 1970.


Fonte: Ionline

Sem comentários:

Enviar um comentário

Ocean Cleanup lança o maior “aspirador” do planeta na limpeza dos oceanos.

  A maior estrutura de limpeza oceânica alguma vez concebida entrou em plena actividade neste mês, representando um avanço tecnológico sem p...