He
Henrique
Galvão liderou o primeiro sequestro naval do mundo moderno ao tomar
pelas armas o Santa Maria
1961
foi o annus horribilis do presidente do Conselho de
Portugal, António de Oliveira Salazar, cuja ditadura foi desafiada a
23 de Janeiro com o sequestro do paquete Santa Maria, pelo capitão
Henrique Galvão, em Fevereiro com a revolta da UPA em Angola e em
Dezembro com a invasão da Índia portuguesa por tropas da União
Indiana.O objectivo de Henrique Galvão com a sua Operação Dulcineia (sequestro do luxuoso paquete Santa Maria), com o apoio do Directorado Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), era chamar a atenção do mundo para a longa ditadura portuguesa e, em simultâneo, denunciar o regime ditatorial de Francisco Franco em Espanha.
Por outro lado, esperava que as províncias ultramarinas de Angola e Moçambique se rebelassem com ele contra o regime colonial português. Os 24 revoltosos, alguns galegos, embarcaram como vulgares passageiros no porto venezuelano de La Guaira e outros em Curaçau. Todos transportavam armas na respectiva bagagem. Na manhã do dia 23 de Janeiro atacaram a ponte de comando do Santa Maria. Embora a intenção operacional fosse a tomada pacífica do transatlântico, com os seus 600 passageiros e 370 tripulantes, o terceiro oficial (nesse momento de quarto na ponte de comando) resistiu ao assalto e foi abatido a tiro. Vários tripulantes foram feridos no confronto.
Depois de capturarem o paquete, então denominado Santa Liberdade, os revoltosos impediram todas as comunicações do navio com o exterior e rumaram a embarcação a sudoeste, em direcção a Angola.
Após
um jogo do
gato e do rato durante 30 dias de busca marítima pelo Atlântico
Sul, o Santa Maria foi localizado por navios de guerra americanos. Os
revoltosos desviaram o navio para o Recife, Brasil, sob escolta
desses navios de guerra. No Recife renderam-se às autoridades
brasileiras e foi-lhes concedido asilo político. Henrique Galvão
tentou justificar o seu acto com o livro "Santa Maria: A Minha
Cruzada por Portugal".
Galvão,
que fora apoiante de Sidónio Pais e do salazarismo, administrador
colonial e responsável pelas exposições coloniais do Porto e do
Mundo Português em Lisboa, rompeu com Salazar por razões pessoais e
por discordar da sua política ultramarina. Declarava-se um
visionário e dizia que eram esse tipo de homens, e não os
burgueses, os autores de todas as revoluções.Durante o tempo em que "governou" o navio, Galvão chamou a atenção do mundo, conferenciou com emissários dos Estados Unidos e do Brasil.
Muitos historiadores consideram que os EUA, o Brasil e o Reino Unido estabeleceram um perigoso precedente diplomático com a sua atitude ambígua ao não condenarem as acções de Galvão no mar, e que isso foi uma das primeiras expressões de relativismo moral e de politização que predominaram na década de 60.
À época, um jornal suíço escreveu que o caso não era saber se o regime de Salazar "merecia a simpatia e assistência" mas se, ao contrário, a "disciplina marítima fora quebrada".
"Paradoxalmente, o sequestro do navio foi copiado como modelo para desvios terroristas da actualidade. Nesse sentido, o Santa Maria abriu caminho aos actos de pirataria dos anos 70 e 80, nomeadamente dos ataques contra o paquete Achille Lauro e numerosos outros actos de terrorismo internacional", escreveu numa tese o investigador Luis Miguel Solla de Andrade Peres.
Ao considerar o acto político, o Ocidente abriu as portas a acções semelhantes, como o sequestro por terroristas venezuelanos do cargueiro Anzoategui ou do paquete italiano Achille Lauro por terroristas palestinianos em 1985.
O perfil de Henrique Galvão foi sempre definido pelo seu colonialismo e anticomunismo e, depois de 1951, pelo anti-salazarismo. O diletante aventureiro romântico português morreu no exílio, no Brasil, em 1970.
Fonte: Ionline

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