As águas do Médio Oriente voltaram a entrar em ebulição com o regime de Teerão a colocar o shipping no epicentro de uma confrontação directa com os Estados Unidos da América.
Numa escalada retórica sem precedentes, as autoridades iranianas advertiram que as frotas mercantes e as infraestruturas logísticas aliadas de Washington passarão a ser consideradas “alvos legítimos” no caso de uma ofensiva militar norte-americana. O aviso partiu de Mohammad Bagher Ghalibaf, o influente presidente do parlamento iraniano, que endereçou uma mensagem inequívoca ao presidente Donald Trump. Segundo o alto responsável, qualquer acção bélica por parte de Washington será encarada como um acto de guerra, não restando ao Irão outra alternativa senão a “defesa legítima”. Nesta estratégia de dissuasão, o regime não se limitará a visar activos militares: os centros de transporte marítimo e os interesses de Israel foram explicitamente listados como potenciais teatros de represália.
Esta postura de desafio surge num momento de extrema fragilidade interna para a República Islâmica. O país tem sido fustigado por protestos populares de larga escala, que eclodiram no Grande Bazar de Teerão em dezembro passado, impulsionados pelo colapso dramático do rial e pela inflação galopante. Enquanto Donald Trump utiliza as redes sociais para declarar o seu apoio aos manifestantes, afirmando que o povo iraniano “clama por liberdade”, o regime endurece a narrativa externa para tentar consolidar o controlo doméstico.
A comunidade internacional observa com apreensão este novo braço-de-ferro, que ocorre num ano de profundas alterações na ordem mundial. Depois da recente intervenção que levou à destituição de Nicolás Maduro na Venezuela, o foco da administração Trump parece agora inteiramente voltado para o Golfo Pérsico. Para o sector marítimo, a instabilidade é uma faca de dois gumes: se, por um lado, o risco de ataques imediatos faz disparar os prémios de seguro e a insegurança das tripulações, por outro, analistas sugerem que uma eventual mudança de regime em Teerão poderia significar o fim do apoio aos rebeldes Houthi no Iémen, permitindo a tão desejada normalização do tráfego no Canal de Suez. Por agora, o cenário é de incerteza absoluta.

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