sexta-feira, 13 de outubro de 2017

E se o mar Menor vier a transformar-se num mar morto?

As ligações entre o mar Mediterrâneo e o mar Menor, uma laguna na costa de Múrcia, diminuíram quase 80%. Investigadores pedem intervenção rápida e estruturante.


A paisagem insólita ainda não mudou, e as águas calmas do mar Menor, na costa de Múrcia, em Espanha, continuam calmas. Mas, à vista desarmada, muitos poderão já ter reparado que as águas cristalinas estão a dar lugar a uma água de tons esverdeados, e ter percebido que isso pode não ser um bom sintoma. Esse será, porventura, um dos sinais mais visíveis do quanto as coisas têm mudado, sobretudo nos últimos dois anos: uma das principais ligações naturais entre o mar Mediterrâneo e o mar Menor está a desaparecer.

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Isso pode não ser rapidamente aferido à vista desarmada, mas com recurso a imagens de satélite e a medições feitas por drones aquáticos, sim. Esta informação permitiu perceber que as ligações entre o mar Menor e o mar Maior, nome dado ao mar Mediterrâneo naquela região, diminuíram cerca de 80%. Esta diminuição compromete a continuidade deste ecossistema que fez da Manga del mar Menor uma movimentada estância turística.

O mar Menor tem uma forma triangular, 135 quilómetros quadrados de área e uma profundidade máxima de seis metros. La Manga del mar Menor tornou-se uma reputada estância turística por causa da sua língua de areia, uma barreira natural que oscila entre os 100 e os 900 metros de largura durante 20 quilómetros de comprimento, que permitem quase 42 quilómetros de praias. Esta barreira tem quatro cortes. Isto é, quatro ligações entre ambos os mares e que são vitais para a sobrevivência do mar interior, regulando a salinidade e a temperatura da laguna.

Manuel Erena, investigador do Instituto Murciano de Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola e de Alimentação (Imida) ajuda a perceber até que ponto a principal porta de ligação entre os dois mares está a ficar cada vez mais estreita: “Desde 2009, Las Encañizadas [nome da ligação] passou de um tamanho de entrada de 540 metros a 120 metros", contabiliza, citado pelo El País. A profundidade média do canal diminuiu de 70 para os actuais 25 centímetros.

Estes dados foram recolhidos durante uma investigação mais aprofundada feita durante dois anos, desde Maio de 2015 até Maio último. Erena e um grupo de investigadores de várias universidades espanholas e alemãs recorreram a imagens aéreas e a drones subaquáticos, recolheram indicadores como a temperatura da água, a salinidade, a concentração de oxigénio dissolvido, os sólidos em suspensão e a concentração de clorofila, e fizeram ainda estudos de batimetria (a medição da profundidade e do relevo do fundo da laguna). E deixaram, para os mais curiosos, a possibilidade de fazer uma visita virtual a todo este ecossistema.

A diminuição do canal provocou mudanças na laguna: com a pressão turística a cada Verão e o aumento do uso de fertilizantes na agricultura intensiva, há um acumular de matéria orgânica e inorgânica que impede que a luz chegue à camada vegetal, a base de toda a cadeia trófica. "Tudo o que está abaixo de 1,5 metros morre", lembra o pesquisador da Imida.

Para evitar que o mar Menor se transforme num mar morto, o professor de ecologia na Universidade de Múrcia e presidente do comité consultivo científico do mar Menor, Ángel Pérez-Ruzafa, diz que são necessárias medidas urgentes e estruturais que possam garantir a ligação entre as duas massas de água.

"O que o estudo das lagunas costeiras e do próprio mar Menor nos ensinou é que o seu estado ecológico, a sua complexidade e a sua capacidade de se defender contra a agressão humana depende completamente da conectividade restrita com o mar adjacente", explica o especialista ao El País, acrescentando que as singularidades hidrodinâmicas e ecológicas do mar Menor lhe atribuem “uma grande capacidade de auto-regulação e recuperação”.

Fonte: Público

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