quarta-feira, 22 de março de 2017

Núria Baylina, a mulher que alimenta o Oceanário


Começou a trabalhar no Oceanário em 1997, antes da inauguração para a Expo’98, e ainda chegou a presenciar "parte da decoração e do enchimento dos tanques". Núria Baylina foi primeiro aquarista – "um aquarista trata dos peixes, dos tanques, está responsável para que os aquários estejam limpos, os peixes saudáveis, bem alimentados" – e depois foi subindo na cadeia "alimentar" do Oceanário. Actualmente, aos 45 anos, é Curadora e Directora de Conservação.

Confessa que as funções a têm afastado do que mais gosta ("O contacto com a água, pôr as mãos, trabalhar em contacto com os animais"), mas não é isso a tirar-lhe alegria no trabalho.

Núria Baylina recebeu a SÁBADO no seu Oceanário, a propósito da SÁBADO Especial Oceanos, já nas bancas. Falou da parte "biológica" do aquário. Os peixes, a comida, as mordidelas, a reprodução e os ciclos de vida.


Quantas pessoas trabalham no departamento de biologia do Oceanário?
Entre biólogos e técnicos e engenheiros zootécnicos, veterinários, somos 32. Fazem um trabalho que muitas vezes não se vê, como reprodução de espécies, conhecimento das espécies quer em termos de crescimento e reprodução.

Pelo que se percebe, a alimentação dos animais é feita a vários tempos, correcto?
Alimentam-se de formas diferentes. Por exemplo, com as anémonas é uma alimentação uma a uma, demora algum tempo em mergulho. As mobulas, o nosso cardume de mantas, estão treinadas para alimentar-se numa plataforma, a pessoa que está a alimentar está dentro de água, e estão treinadas a passar e o alimento é-lhes dado na boca. Ao contrário do que as pessoas pensam, os animais não comem assim tanto, alimentamos três vezes por semana no tanque central. A comida é dada à superfície aos tubarões, garoupas e outros animais de maior porte. Damos abrótea, polvo, pescada, etc. Nessa altura podemos controlar quem está a comer e quem não está. Depois há uma outra quantidade de alimento preparada de outra forma, bocados mais pequenos, que é atirado noutro local, para os peixes pelágicos que se deslocam na coluna de água. Lançamos também uns baldes para o fundo com amêijoas para as espécies que as comem com casca, por exemplo algumas das raias, os ratões.


E em mergulho?
Para aquelas espécies que não sobem na coluna de água, temos de mergulhar para garantir, principalmente as raias de fundo, que todos se alimentam, estão em bom estado, tomam as vitaminas que têm de tomar. Como é um contacto muito próximo conseguimos ver se algum animal está bem alimentado ou está ferido. Com o tempo, torna-se fácil estando todos os dias com os animais. Por exemplo, o nosso aquarista que lida com os pinguins distingue-os todos.

Já há uma rotina.
A certa altura eles já sabem, por uma questão de ritmo. A alimentação é dada naquele local e da mesma forma. Eles identificam, quando colocamos na água, as varas com a comida, eles sabem que é hora de comer, dirigem-se para lá rapidamente. O peixe-lua, por exemplo, come duas vezes por dia, baixamos a plataforma, colocamos uma bola verde na água com um som, ele sabe que é para ele, vai lá e é alimentado à mão, na boca.

Que tipo de som?
Como um chocalho, um tubo metálico que tem qualquer coisa dentro, abanamos. Tem de ser treinado, mas aprendeu rápido, as primeiras vezes foi preciso entrar na água e andar atrás dele para que associe.

De onde veio este exemplar?
Do Algarve. Há lá uma rede, uma armação de pesca de atum, muitas vezes ficam lá outras espécies que normalmente libertam, mas quando sabem que estamos interessados falam connosco e vamos lá buscar. Este veio há dois anos talvez. Os peixes-lua, o máximo de tempo em cativeiro são seis anos. Não se conhece a longevidade em meio natural. Em aquário é um período longo, do que se conhece.

Que tipo de peixe dão de comer?
Não sei o que têm hoje, mas hão-de ter lula, arenque, capelin, espadilha, várias coisas, depende dos dias. O que estão a dar às raias, se for lula e espadilha, estão inteiros. O peixe que usamos para alimentação é peixe congelado, sempre, para evitar contaminações. A maior parte dele até é peixe que consumimos para nós, compramos para os animais. Como usamos peixe congelado temos que suplementar com vitaminas porque a congelação faz com que se percam algumas características do alimento. Há três ou quatro destes peixes que damos que não são de consumo humano e aí há fornecedores especiais que fornecem parques zoológicos, zoos, aquários. Algumas das espécies que as aves comem são dessas.

Quanto quilos por semana?
500.

E as aves?
O cuidado que é preciso ter é com o tamanho, normalmente o peixe está inteiro ou temos de o partir quase em forma de peixe, senão elas não vão ingerir, tem de ser fornecido com o tamanho e consistência correcta.

E os anfíbios?
Usamos o que as pessoas têm em casa, muito alimento vivo. Há empresas que fazem produção de grilos, baratas, é o que damos. Mas também não temos muitos anfíbios.

Há perigos físicos para os mergulhadores?
Pode acontecer serem mordidos, mas é pouco frequente. Por exemplo, onde acontece mais é nesta alimentação das raias, podem levar ali uma dentada na luva ou isso, porque alimentamos com a mão, mas é muito raro e não é grave. Uma vez aconteceu uma coisa um pouco pior, foi uma moreia, numa alimentação, apanhou a mão, mordeu mesmo. Mordidelas de moreia são complicadas de sarar. Não é só o estrago que fazem, elas têm substâncias na boca que dificultam a cicatrização e a coagulação do sangue. Mas também não foi nada de grave. Já tivemos alguns problemas com os espigões das raias, que não tiramos, se calhar é isso o que temos de ter mais cuidado, pode ser o mais grave. Podíamos tirar, e há muitos aquários que o fazem, mas até hoje nunca quisemos. Mas agora estamos com animais muito grandes e tenho de pensar melhor.

E os tubarões?
Potencialmente, constituem perigo, mas nunca aconteceu, nunca tivemos nenhum problema.

O Oceanário destaca-se também pela reprodução. É um trabalho árduo?
Ainda se domina muito pouco. São poucas as espécies que se conseguem reproduzir, ainda que tenha aumentando ao longo dos anos. A nossa missão é perceber como funciona, replicar e divulgar a informação a outros aquários. Tecnicamente conseguimos controlar a reprodução de algumas espécies. Por exemplo, no caso das raias-de-pintas-azuis, era uma espécie que há alguns anos ninguém conseguia reproduzir - o Oceanário, desde 2007, é o coordenador do programa europeu de reprodução desta espécie, e desde aí já reproduzimos dezenas. Com a informação que obtivemos e divulgámos, já há mais de uma dezena de aquários na Europa a reproduzir esta espécie, portanto, não é necessário ir buscar à natureza, somos auto-suficientes.

Quanto aos animais que importam, que cuidados são precisos?
Dos que têm de vir da natureza, temos de fazer pesquisa de fornecedores, métodos de captura e transporte, tudo isso conta para decidirmos se podemos adquirir a espécie ou não. Temos de ter a certeza da forma como os podemos manter aqui, mas também como foram capturados,  e se a forma como são transportados é a melhor e mais sustentável.

Como é feito o transporte?
Depende dos animais. No caso das raias-de-pintas-azuis, têm um tamanho pequeno-médio, portanto são possíveis de ser transportadas em caixas de esferovites, sacos plásticos e caixas de cartão. Podem vir avião. Depois há outros, por exemplo o tubarão zebra juvenil que temos aqui e que veio de um aquário internacional, com um tamanho que cabia em caixas. A partir de certas dimensões, como aconteceu com os tubarões de pontas negras que recebemos de um aquário da Alemanha, já tiveram de vir em tanques, e aí pode ser de avião, em tanques selados, ou por estrada, de camião, que é mais longo mas consegue-se com consistência.

Quais foram os mais recentes?
Um cardume de mantas, que chegou em Julho. Estão no aquário central desde Agosto, vieram da Florida. Não vieram de um aquário. Neste caso estamos a falar de uma espécie que é capturada no meio selvagem. Porque são espécies regulamentadas, houve todo um processo de pedir licenças às autoridades americanas, de contactos com os fornecedores que fazem a captura e as mantêm durante algum tempo e depois fazem o transporte para cá de avião em tanques especiais.

A mudança de gestão (para a família Soares dos Santos) vai trazer alterações na parte técnica do Oceanário?
Queremos continuar neste caminho, reproduzir cada vez mais espécies. Um dos grandes desafios dos aquários públicos é a reprodução destes peixes que vemos aqui, peixes ósseos, cuja reprodução é muito difícil, as larvas são muito pequenas, a alimentação é difícil, é uma das apostas para o futuro.

É possível o Oceanário ter mais peixes e plantas?
Penso que estamos próximos da lotação máxima. Mas morrem animais, alguns têm ciclos de vida pequenos. Por exemplo, os chocos não duram mais de um ano, algumas espécies de medusas duram seis meses, talvez sejam os que duram menos, enquanto outros chegam aos 30 anos, isso também nos dá aqui uma hipótese de renovação. Ou seja, se temos espécies de vida pequena, a certa altura podemos decidir que não queremos aquela espécie, queremos outra.

Qual é o exemplar mais velho?
A maior parte das espécies são capturadas no meio natural, ou seja, estimamos a idade, não temos a certeza, o que podemos dizer é que temos peixes desde o início, 1997. Por exemplo, a maior parte dos tubarões do aquário central - têm, no mínimo, 20 anos.

Tem alguma espécie preferida?
Gosto mais de trabalhar com invertebrados – corais, anémonas e cefalópodes.


Fonte: Sabado

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