segunda-feira, 27 de maio de 2019

Carlos Antunes. ”Não há memória colectiva de uma subida do nível do mar como a que vamos ter”


A melhor estratégia é a acção imediata, avisa o investigador. Já para combater as alterações climáticas, não vê outra opção a não ser refrear o consumismo. 

Carlos Antunes, professor e investigador da Faculdade de Ciências de Lisboa e do Instituto Dom Luiz, é um dos autores dos mapas que permitem pela primeira vez ter a percepção das áreas mais vulneráveis no país à subida do nível médio do mar. Das cotas e marés mergulhou no estudo das variáveis das alterações climáticas e assume que a inquietação é grande. Para evitar o “colapso”, acredita que a única solução passa por aceitar que a prosperidade tem limites e que é preciso refrear o consumo. Em abril, a aplicação snmportugal.pt, que desenvolveu em conjunto com Cristina Catita e Carolina Rocha, também da FCUL - e onde é possível visualizar os cenários de subida do mar em Portugal - foi distinguida pela Ordem dos Engenheiros. Esperam que ajude a dar visibilidade a uma área em que é preciso investir já, para haver menos surpresas nas próximas décadas.
O que dizem os vossos cenários sobre a subida do mar por exemplo em Lisboa?
Temos cenários submersão frequente com a subida do nível médio do mar e cenários de inundação extrema, que é o que pode acontecer quando a maré atinge picos máximos em preia-mar (maré cheia) e sobretudo quando estamos nas marés vivas equinociais de Março e Setembro, as que têm maior amplitude. Olhando para a maré em Lisboa, no Cais Sodré, hoje chega à cota máxima de 2,48 metros, ali onde temos os estrangeiros a ver os rios e os barcos. Em 2050, com a subida do nível médio do mar, os cenários apontam para um máximo de 2,62 metros.
Que efeitos serão visíveis? 
Começamos a ter períodos do ano com duas, três, quatro horas com 20 centímetros de água. 
Em que não dá para circular de carro? 
Se a avenida não subir, pode não dar para circular. Mas isto sem nenhum efeito adicional de haver uma tempestade.
Vai ser preciso subir a marginal?
Não só em Lisboa. Vai ser preciso um conjunto de intervenções nas zonas costeiras e nas zonas de águas interiores, nomeadamente na ria de Aveiro e na ria Formosa. Voltando ao Cais Sodré, se em 2050 temos este problema sobretudo nas marés vivas de Março e Setembro, em 2100 todas as marés vivas em preia-mar podem gerar uma coluna de água de 90 centímetros e aí seria uma imobilização completa. As marés vivas são de 15 em 15 dias, na lua nova e na lua cheia.
Em Lisboa quais serão as zonas mais problemáticas? 
É possível fazer essa projecção detalhada, mas temos a zona do Cais Sodré, Santos, Alcântara, Belém, Algés.
Não é possível fazer a contenção com diques?
Seria preciso fazer diques em toda a ria de Aveiro, Faro, estuário do Sado, Mondego, vamos imaginar quanto custa. Este efeito já é em parte visível. As marés-vivas de 2018 e 2019 estão associadas a super-luas, um fenómeno que acontece de quatro em quatro anos ou cinco. No ano passado tivemos inundações nas marés vivas em Ferragudo, também já aconteceu em Tavira e no Seixal, que são sítios que têm uma cota mais baixa do que a preia-mar.
Quando é que são as próximas marés vivas equinociais com esse efeito?
A 29 de Setembro. Tivemos em 2010, em 2015, é agora em 2019 e depois em 2024.
É de esperar um grande impacto?
Não é por acaso que foram anos de grande erosão costeira, sendo que há a conjugação de outro fenómeno que é terem sido anos de aumento dos temporais no inverno. Se tivermos uma conjugação de marés vivas com temporal, as pessoas verão uma maré muito acima do que estão habituadas.
Um dos vossos cenários estima que em 2050 a área inundável devido à subida do nível do mar é de 903 km2, passando a 1146 km2 em 2100.
Mais uma vez isso é o que prevemos nos cenários extremos, nas marés vivas equinociais, que têm maior amplitude. Em termos gerais, podemos dizer que situações de inundação como vimos em Ferragudo serão cada vez mais frequentes e em mais sítios.
Há o risco de desaparecerem definitivamente praias?
Só se houver uma intensificação de temporais e se não for feita a reposição de areias, mas essa é uma área que o país tem estado a acautelar. O que acreditamos é que vai ser preciso subir avenidas marginais e eventualmente ter diques em algumas zonas. As medidas têm de ser planeadas caso a caso.
Já há municípios a fazer esse trabalho?
Temos trabalhado com a Câmara Municipal de Lisboa e temos um projecto com a Câmara Municipal de Loulé em que identificámos as áreas que vão ser afectadas até 2050, 2080 e 2100, portanto uma análise de risco por fases, em função da subida progressiva do nível do mar. Identificámos as infraestruturas que devem ser adaptadas - molhes, marina, praia, alguma zona urbana. Agora o que a câmara tem de fazer é um plano estratégico para definir o que tem de ser feito ao longo do tempo, que é o que tem sido feito em cidades como Nova Iorque. Mas a preocupação não é só das câmaras. Esta semana entregámos um relatório a um fundo de investimento privado que tem um empreendimento aprovado numa zona altamente vulnerável no Algarve e que veio ter connosco para lhe apresentarmos medidas de adaptação.
Costumam ter pedidos desses?
De um fundo privado foi o primeiro e ficámos muito surpresos. Estávamos à espera que nos caíssem em cima por podermos estragar o negócio mas foi o contrário, vieram à procura de solução. 
Em 2017 alertou publicamente que a base aérea do Montijo está numa zona extremamente vulnerável à subida do nível médio do mar. Ficou surpreendido com a decisão da construção do novo aeroporto? 
Sim e não. Nessa altura já tínhamos assinado um protocolo com o Ministério do Ambiente para que pudessem aceder aos nossos mapas de cartografia de risco costeiro e passados uns meses houve um contacto de um grupo de investigadores que analisou o impacto naquele projecto. Portanto algo foi feito. Não sou contra o projecto. Sendo um projecto a 40 anos, com uma vigência até 2060, tudo bem, para mais porque a parte onde se vai construir é a mais alta. O que alerto é para a base aérea, que terá de ser mudada. Como é uma subida paulatina, posso ir-me adaptando. É preciso é fazer planos e providenciar o financiamento. Situações extremas podem sempre ocorrer: limpa-se, renova-se e segue-se em frente. Agora quando pensamos a prazo, um novo edifício de habitação supostamente vai durar 100 anos ou mais, implica contratos de longa duração, direitos de transmissão e sucessão. É preciso ter este aspecto em conta.
Na semana passada, quando foi apresentada a Cidade da Água que vai nascer nos antigos estaleiros da Lisnave em Almada, lembrou que é mais um empreendimento numa zona altamente vulnerável. Qual é o risco?
Se os projectistas não tiverem em atenção os cenários de subida do nível médio do mar, poderão ter surpresas daqui a 60 ou 70 anos. Se quiserem que o projecto tenha maior longevidade, têm de se precaver. Isto é um trabalho de longo prazo. Se olharmos para o caso de estudo de Miami, as avenidas já subiram meio metro e o próprio mayor diz que estão a tomar medidas para daqui a 30, 40 anos.
Que infraestruturas o deixam mais preocupado?
A linha de Cascais por exemplo. Há vários troços de Algés ao Cais Sodré onde é altamente vulnerável, bem como a estação de metro do Cais Sodré e parques de estacionamento subterrâneos.
Na vossa aplicação estimam 60 mil edifícios e 146 mil residentes em áreas costeiras vulneráveis à subida do nível médio do mar em 2050 e 82 mil edifícios e 225 mil residentes em 2100. São pessoas que será necessário deslocar?
São pessoas potencialmente afectadas. Usámos dados de 2011, que consideram edifício até um quiosque. E mais uma vez estamos a falar de um cenário extremo, de uma maré viva com um temporal. Calculamos que 14% da população vive a 2 quilómetros da linha de costa. Terá de ser feita essa avaliação em cada local.
Quanto é que o mar deverá subir?
Até 2050 o cenário com maior probabilidade aponta para uma subida de 44 centímetros em relação ao início do século passado, sendo que nos últimos 100 anos o mar já subiu cerca 20 centímetros. Vai subir mais 23 centímetros. 
Onde são feitas essas medições?
Temos os dados do marégrafo de Cascais, que é o mais antigo da Península Ibérica, em funcionamento desde 1882. Os marégrafos servem para duas coisas: monitorizar as variações do nível do mar - um registo contínuo que serve para fazer a previsão da preia-mar, baixa-mar - e perceber a evolução história. Neste caso, o que nos mostra o marégrafo de Cascais é que nos últimos 100 anos, desde 1920 até hoje, o nível do mar subiu cerca 20 centímetros na costa portuguesa. Para Portugal, o cenário mais provável é uma subida de 1,15 metros até 2100. O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) coloca o zero no ano 2000, pelo que se retirarmos 0,13 metros, a subida até esse ano, temos uma subida de 1,02 metros em 100 anos no século XXI.
Já tem sido referido que no final do século algumas cidades dos EUA poderão mesmo desaparecer. Não há esse risco cá?
O risco acrescido em alguns pontos do globo tem a ver com outro fenómeno, que é perceber se o continente está a emergir ou em subsidência. Miami está a afundar 6 milímetros ao ano e o mar está a subir 4mm, o que significa que por ano têm um centímetro a mais de subida do nível médio do mar. Nós estamos em uplift, a emergir, ainda que a uma taxa muito pequena, 0,1 mm por ano. Lembro-me de uma vez um autarca nos ter confrontado com um dos cenários de subida do nível do mar de 1,5m até 2100, quando a Escandinávia tinham valores mais baixos. A Escandinávia está numa zona sob influência da última glaciação e está a emergir um centímetro por ano, chama-se o ajuste isostático pós-glacial. Como eles estão a subir, estão a ver o nível do mar a baixar. É normal que prevejam uma subida de 20 cm até 2100, é o fenómeno ao contrário do que existe em Miami. Daí a importância de estudar o efeito relativo da subida do nível do mar para cada zona.
Quando começou a seguir esta linha de estudo?
Há 12 anos, sensivelmente. Estava a trabalhar com colegas de geologia que estudam micro-organismos em sapais, micro paleontologia. Estudam micro-organismos que vivem naquela zona inter-tidal, entre a baixa-mar e a preia-mar. Observam-nos em estuários e fazem furos para ir a 20, 30 metros buscar a mesma sequência de espécies. Fazendo datações, conseguem por exemplo inferir o nível médio de mar histórica. Sou de geodesia e um colega precisava de saber as marés em zonas do estuário do lado de dentro. A minha função era quase de topógrafo para ver as cotas. Começámos a ver marés diferentes, começo a pegar nos dados do marégrafo de Cascais, a analisar as séries.
Não perdendo cidades, imagina alguma coisa a desaparecer do mapa?
Uma vez ouvi alguém dizer que se ia perder o Monte da Caparica. Não faz sentido. Estamos a falar de um metro - as marés em vez de chegarem a 2 metros, 2,20, vão chegar a 3 metros, 3,20. Claro que dito isto, é preciso juntar à subida do nível médio do mar o fenómeno da erosão, que temos estado a conseguir mitigar mas que vai ter custos cada vez mais avultados com alimentações artificiais. Sistemas como as ilhas de Barreira no Algarve serão complicados. Há vários grupos a estudá-lo. A ilha da Fuzeta, podemos alimentá-la artificialmente, mas se a subida começar a intensificar-se, vamos perder a batalha. Vai tudo depender da subida. Se for uma magnitude abaixo de um metro, pode resistir com a ajuda de alimentação artificial.
O Ministério do Ambiente anunciou recentemente um reforço das praias da Costa ao longo de 3,8 quilómetros, um investimento de 6,3 milhões de euros. É por aí?
Sim. Na zona de Espinho, a sul da Foz do Douro, estima-se que desde os finais do século XIX se tenham perdido cerca de 50 milhões de metros cúbicos, quando só foram repostos 2,8 milhões. Há muita areia que teremos de repor. Na zona do sota-vento algarvio, a mesma coisa. Podemos ter situações em que só haverá praia em baixa-mar, como acontece na praia do CDS, na Costa da Caparica. Nesse campo há muitos projectos em curso, como a monitorização dos perfis de praia. Há também os Programas da Orla Costeira (POC), que prevêem em alguns casos relocalizações. É a estratégia adequada. A minha preocupação são as águas interiores. Há um programa dedicado aos estuários e sistemas lagunares que inclui as rias. Não estão sob a acção erosiva das ondas e onde não é visível para já o efeito da subida do nível do mar...
Mas vai ser?
Há uma exposição elevada. Gafanha da Nazaré, Vagueira, Olhão, Faro, Vilamoura, Vila Real de Santo António são zonas baixas do lado interior que com o efeito da subida progressiva das marés vão começar ao longo dos anos a ter zonas de inundação frequente. Aveiro foi a primeira cidade a ter uma eclusa para controlar marés se não estava sempre com inundações - o que está a acontecer em Ferragudo ou no Seixal começou em Aveiro nos anos 90. Mas as zonas interiores de contacto com as rias terão de ser adaptadas, assim como as infraestruturas portuárias. A marinha dos EUA tem um plano que nos serviu de referência para o trabalho que fizemos em Loulé. Das 800 bases navais no mundo inteiro, identificaram 60% que estão em zonas vulneráveis à subida do nível do mar. Definiram um plano com intervenções a cada 30 anos - sabem o que é preciso reforçar, subir, o que é para abdicar.
Ainda não temos esse levantamento?
Não. E temos em zonas altamente vulneráveis a base naval do Alfeite, o aeroporto de Faro, a base aérea do Montijo, estações fluviais do Seixal, Barreiro ou Belém, o porto da Gafanha da Nazaré, a linha de comboio de Cascais, vários equipamentos e infraestruturas de serviços fundamentais à vida das cidades que a partir de uma determinada data poderão ter problemas. Quando, não podemos prever ao certo, mas é para isso que temos cenários. Face a uma ameaça incerta, a melhor estratégia é agir já. Se não planearmos agora, pode chegar o momento e não haver disponibilidade financeira, até para resolver tudo ao mesmo tempo. Por isso ficámos de certa forma admirados com este fundo privado que nos contactou. Há 1% de probabilidade de a solução que lhes demos não garantir segurança ao edifício, mas será apenas por algumas horas, é o que é uma gestão de risco.
É essa a ilação que gostava que se tirasse da plataforma?
Sim, queremos alertar a consciência das pessoas e tentamos mostrar também o trabalho que temos estado a desenvolver com Lisboa, Loulé a comunidade intermunicipal da região de Coimbra. Para Lisboa estamos agora em conjunto com o IPMA e o Técnico a juntar o cenário de subida do nível médio do mar com o risco de tsunami, trabalhos que tinham sido feitos de forma independente. Que eu conheça, Lisboa é a cidade do país que está a dar mais atenção ao problema, com uma abordagem muito séria. Tem estado a libertar a zona ribeirinha, a entregar a cidade ao rio, que é uma estratégia para tornar a cidade mais resiliente. Vamos apresentar trabalhos à Carris, ao metro, à EDP.
Vão ser precisas muitas obras?
Vai ser preciso adaptação. Se temos estruturas que vão começar a ter inundações com frequência, é preciso intervir, não podemos deixar que chegue esse momento. O problema é que enquanto as ondas de calor vamos começando a sentir na pele, o nível do mar não se sente. As pessoas apercebem-se da erosão costeira, eventualmente pensam que a sua praia está a perder areia, agora o nível do mar subir um metro em 100 anos... A última vez que o mar esteve mais alto do que está hoje foi num período chamado eemiano que começou há 125 mil anos, em que uma subida repentina de 2ºC/3ºC causou uma subida de 6 a 9 metros em 200/300 anos, em alguns períodos com taxas de um metro a cada 30 anos. Mas nessa altura o homem não vivia junto à costa, tinha medo. O homem moderno não tem memória colectiva do que é o nível do mar subir um centímetro por ano, dois centímetros por ano, que é o que vai acontecer. E por vezes quando se vê hoje o galgamento das ondas, associa-o simplesmente às tempestades. Quando há um temporal que traz agitação marítima, o que vamos ter é colunas de água ainda mais aumentadas. Os furacões nos EUA chegam a subir o nível do mar seis metros, cá a sub-elevação do mar numa tempestade é de 60, 70 cm. Se a 29 de Setembro tivermos uma tempestade que faça subir o nível do mar em Cascais em 60 cm, temos a maré em Cascais a 2,60 m - aí o Cais Sodré é inundado, o Seixal é inundado. Isto não é alarmismo, é dizer o que pode acontecer. A probabilidade é baixa, mas pode acontecer. É isto que significa fazer análise de risco. Preparo-me para o mais provável mas também tenho de estar preparado para o extremo. Quando alerto para o problema das zonas de águas interiores é porque é lá que estão a maioria dos residentes e dos edifícios. Cada município terá de analisar com os diferentes intervenientes, instituições, investidores. O custo tem de ser partilhado por todos, o Estado não vai ter capacidade.
E pensando nas próximas gerações...
Sim. Veja o exemplo de Lisboa. A CUF está a fazer um hospital em Alcântara. Podem dizer que daqui a 30, 40 anos, até tiram dali o hospital porque a tecnologia fica obsoleta, mas são um investidor privado, têm outra facilidade em deslocar-se. Mas e se daqui a 30 ou 40 anos a CUF entrega o edifício à câmara? Ou vamos imaginar que em 2070 ou 2080 a zona da fundação Champalimaud começa a ser frequentemente inundada e a fundação deixa de ter interesse naquele edifício. O que é que se vai fazer? Quem é que fica com ele?
Não é um problema da fundação?
E se passa para o Estado, que solução se dá? Dentro das câmaras tem de haver técnicos responsáveis e políticos conscientes destes problemas.
Depois de 2100, o mar continua a subir?
É o efeito do aquecimento global que se vai prolongar mais no tempo, pode continuar a subir daqui a 1000 anos.
Nesse cenário o país perde território?
Não... Tenho algumas simulações que vão até 2300, 2400 e dão três a quatro metros. As reservas de água doce na Gronelândia são suficientes para fazer subir o nível médio do mar seis metros. As reservas da Antártida, se descongelasse toda, faziam subir o nível do mar 56 metros. No conjunto temos 62 metros. É possível isto acontecer em 100 anos? Não. É possível acontecer em mil anos? Não. São precisos vários milhares de anos, chegar-se a um aquecimento de 9 ºC. Mesmo esse degelo também iria arrefecer o oceano e contrariar o aquecimento e o efeito da expansão térmica.
Explique-nos esse efeito: como é que se dá a subida do nível médio do mar?
As razões são essencialmente duas. O nível do mar sobe quando o mar aumenta de volume. Isso acontece por um lado pelo aquecimento: devido ao aquecimento global a água expande. 
As projecções apontam para mais 1ºC desde o período pré-industrial.
Sim, isso em termos globais na atmosfera. Nos oceanos estamos a falar de um aquecimento de 0,8ºC à superfície. A partir de 2005 passámos a ter outro tipo de medições e dados de satélite que permitem quantificar o aumento de massa no oceano e a perda de massa na Gronelândia e na Antártida, portanto a influência do degelo.
Que tem vindo a acelerar.
Sim, são os sistemas que sentem o impacto do aquecimento mais rapidamente. O Ártico está a aquecer duas a três vezes mais rápido do que a média global. Enquanto que a média anda em 1,1ºC desde os finais do século XXI, com a Europa e os EUA a aquecerem 1,6ºC, o Ártico aqueceu 2ºC a 3ºC em algumas zonas. Um aquecimento mais rápido faz com que a diferença de temperatura entre o Ártico e as latitudes mais baixas fique menor. E por causa disso temos alterações nas correntes de jato ou no vórtice polar.
Algo que foi associado à vaga de frio que varreu este ano os EUA.
O vórtice polar está em relaxamento. É como nos rios, quando vagueiam mais devagar, começam a criar meandros. O vórtice começa a fazer trocas de ar do Ártico para zonas de latitude mais baixa, o que pode trazer períodos de ventos gelados e as pessoas pensam que afinal não estamos a aquecer mas a arrefecer. E da mesma forma vão grandes quantidades de massa de ar quente para o Ártico, o que leva ao degelo. 
Há 10, 20 anos imaginavam-se alterações com esta magnitude?
Olhando para o que os cientistas escreviam nos anos 80, vemos que não. Todos os anos há cientistas que vão à Antártida e todos os anos o reporte é idêntico: ficam chocados porque não imaginavam o quão rápido determinados sistemas se estão a desintegrar, a taxa com que os glaciares estão a correr para o oceano.
Já lá foi?
Não... Se estamos preocupados com estas coisas, viajar tem um alto impacto ambiental. Fazer uma viagem de avião pode equivaler às minhas emissões de três ou quatro meses.
Evita mesmo?
Tenho esse princípio. Já tive mais vontade de viajar, hoje acho que é mais importante ter esta consciência. Para compreender melhor o processo que está por detrás da subida do nível médio do mar há que estudar muitas coisas e acabei por dedicar-me a esta área. 
Sentiu que precisava da “big picture”?
Sim, e também de relacionar economia e crescimento económico com aquecimento global. Já fiz duas conferências aqui na faculdade sobre isso e é uma área em que estou a trabalhar.
Há más notícias?
Fazer previsões nesta área é extremamente complicado, falamos sempre de probabilidades. Os cálculos e análises permitem formular projecções. Basicamente conseguimos relacionar o aquecimento global com indicadores socioeconómicos. Se soubermos a população mundial, quanto gasta em média, quanto carbono se emite por cada dólar que gastamos, conseguimos saber as emissões anuais e projectar para o futuro. Demonstra-se por seis ou sete razões que é impossível conter o aquecimento a 1,5ºC.
No final do ano passado o IPCC avisou que temos 12 anos, até 2030, para evitar ultrapassar esse valor.
Não concordo. O IPCC é também político. Foi constituído em 1988 pela Organização Mundial de Meteorologia e pelo programa de ambiente das Nações Unidas. Foi há 30 anos. Nestes 30 anos realizaram-se 23 conferências das partes (COPs), cinco relatórios de avaliação e 15 relatórios especiais. O que é que aconteceu nestes 30 anos? As emissões aumentaram 73%, a concentração de carbono aumentou para uma média de 410 partes por milhão, 40% do aquecimento global deu-se após 1988. O nível do mar subiu 9 centímetros, quase metade da subida registada desde o século passado. A população aumentou 50%, o PIB mundial bruto aumentou 324%, o consumo de petróleo 51%. A conclusão que tiro é que o clima não responde à vontade política. Posso decidir, impor as medidas que quiser, que dificilmente vou conseguir combater o aquecimento desta forma. 
Mesmo que agora se reduzissem as emissões? 
A Europa conteve o aumento das emissões desde os anos 90, os EUA também. 
Mas aumentaram bastante na China ou na Índia.
Sim, o aumento da população e do consumo primário de energia acontece nesses países. O clima não responde à vontade política, responde ao desenvolvimento tecnológico e ao aumento da população. O cenário mais provável nos modelos que tenho estado a desenvolver é um aquecimento de 3,3ºC até ao final do século. Se conseguíssemos estabilizar agora a concentração de CO2 nas 410 partes por milhão, devido à inércia do sistema, daqui a 10/15 anos o clima aquecia até 1,5ºC e estabilizava.
Não era essa meta no final do século?
Os cenários com maior esforço de mitigação atingem 1,6ºC, 1,7ºC em 2060, 2070 e começa a cair. O objectivo é chegar ao final do século com menos de 1,5ºC, mas vamos atingi-lo mais cedo. O que me dizem os modelos é que há uma probabilidade de 3,4% de ficar abaixo de 1,5ºC no final de 2100, há uma probabilidade de 11% de ficar abaixo de 2ºC e a probabilidade de 50% é de 3,3ºC.
Está entre os pessimistas?
Considero-me mais realista do que pessimista. Todos os anos somos bombardeados com a notícia do dia em que se esgotaram os recursos. A alta tecnologia, coisa que é pouco falada nomeadamente pelos ambientalistas que defendem a electrificação e a descarbonização por via tecnológica, é altamente dependente de um conjunto de minerais a que se chama terras raras. Cada telemóvel tem 50 a 70 terras caras, o cobalto, o lítio. Se se estiver a dar uma solução para o problema das emissões que a longo prazo é insustentável, porque deixo de ter cobalto, para onde vamos? Como é que vou continuar a minha descarbonização baseada em algo que não existe? 
A indústria dos carros eléctricos não está a antecipar esse problema?
Há quem esteja e quem não esteja. O Carlos Tavares da PSA já pôs o dedo na ferida [questionou a pegada ambiental das baterias e a viabilidade desta alternativa]. A indústria está preocupada, há limitações físicas. Um ambientalista quando diz que um carro eléctrico tem zero emissões está a mentir. Feitas as contas, se fomos calcular desde o poço até à roda, como dizem os ingleses “well-to-wheel”, a diferença não é assim tanta. Tendo em conta os valores de emissões de energia em Portugal, um carro eléctrico como o Zoe pode emitir 28 gramas de CO2 por quilómetro. Um Clio a diesel, mais recente, emite 106 gramas. Se formos contabilizar o tempo de vida de uma bateria eléctrica e se pegar na intensidade de carbono - quanto carbono emito por cada dólar, que actualmente em termos mundiais é de 455 gramas/dólar -, posso calcular as emissões associadas a uma bateria. Dez anos com 15 mil quilómetros/ano dá um cálculo de 131 gramas por quilómetro no Zoe ao longo dos seus dez anos de vida. No carro de combustão também há que ser verdadeiro, porque fazem-se manutenções, pode gastar-se 600 euros por ano e há que contabilizar isso. Mas um Clio pode andar 20 anos. No final, a diferença é mínima - 131 g/km no Zoe e 142 g/km no Clio. A mobilidade eléctrica individual não é solução. Além disso temos 5 milhões de veículos ligeiros eléctricos, mais de 1,2 mil milhões a combustão. Precisava de crescer todos os anos 50%, não há terras raras. 
Não é preciso começar por algum lado? 
Na perspectiva de quem acha que é possível continuar com crescimento económico e populacional e através da tecnologia mitigar as alterações climáticas, faz sentido. Para quem não acredita, não faz sentido. Antes da revolução industrial existiam 280 partes por milhão de carbono na atmosfera. Actualmente existem 410. Aumentaram 130 partes por milhão. Existe um parâmetro que é a sensibilidade climática, que é quanto o planeta aquece por cada duplicação da concentração de CO2. É de 3ºC, ou seja, se atingirmos as 560 partes por milhão, vamos aquecer 3ºC. Se já aumentaram 130º, teremos um aquecimento de 1,4ºC. Porque é que ainda não chegámos lá? Porque a Terra tem inércia. Quando começamos a aquecer uma panela não fica logo a 100ºC.
É por isso que diz que é impossível conter o aquecimento a 1,5ºC? 
Este aumento de 130 partes por milhão vai-nos garantir nos próximos anos um aquecimento de 1,4ºC, mesmo que não emitíssemos mais nada. Em termos de emissões de energias fósseis são 36 gigatoneladas/ano e depois ainda há as emissões do uso do solo e dos incêndios. O oceano absorve 24%, a vegetação outros 24% e 50% ficam na atmosfera, são 18 gigatoneladas. Atingir a neutralidade carbónica seria reduzir estes 50%. Portanto se viajássemos metade, comêssemos metade, consumíssemos metade. Mas isso implicaria decrescimento económico, que os políticos querem a todo o custo evitar. A minha convicção, tal como diz Jared Diamond em Colapso, é que se não fizermos um decrescimento controlado, o sistema implode. Em termos sociais, provavelmente temos ter de decair, a prosperidade que temos hoje nos países desenvolvidos pode ter um fim. É preciso um novo paradigma, tem de haver uma economia circular. Se a população continuar a crescer e a ter cada vez mais prosperidade, vai ter de consumir mais energia.
E se forem energias limpas?
Como é que fundimos a sílica a 1800 ºC para produzir painéis solares sem carvão e sem gás natural? A energia solar não fornece energia suficiente para fornos de alta temperatura. Como é que vou fundir o aço para fazer eólicas? Onde é que tenho magnésio, lítio, cobalto se o esgotar todo? As projecções da ONU apontam para uma população de 11 mil milhões em 2100, 9 mil milhões em 2050. Vemos que a população cresce em média 0,5% ao ano. Se aumentarmos o rendimento per capita em 1%, juntando a esse efeito o aumento da população, teríamos de suprimir emissões num nível superior. Olhando para os dados históricos, nunca desde que há registo se diminuíram as emissões. O melhor que conseguimos é uma estagnação. E se formos verificar esses períodos coincidem com crises económicas. Tenho a convicção de que sem decrescimento económico não é possível, não é sustentável.
Mas como, quando é preciso crescer para haver por exemplo mais investimento público?
Não sei, mas vai ter de ser viver com menos. Um dos exemplos que a ONU dá é a quantidade de recursos que consumimos, nove toneladas por ano por pessoa, 25 kg por dia. Se compararmos um indiano com um americano, o americano consome 40 kg, do interruptor da casa ao asfalto das estradas que usa, o indiano consome apenas quatro. Sem pensar em decrescer, se tentarmos pelo menos igualar o consumo, os países mais ricos teriam de baixar o seu nível de vida. Se a população continuar a aumentar, sem decrescimento de consumo de recursos naturais, teremos um cenário de colapso. O combate às alterações climáticas é paradoxal. O desenvolvimento tecnológico precisa de crescimento económico. Se cresço, aumento o consumo de energia primária. Como o peso das energias fósseis é grande, o esforço de mitigação tem de ser cada vez maior.
Além das viagens de avião, de que é que abdica no seu dia-a-dia?
Uma pessoa quando pensa nestas coisas fica com dilemas, às vezes nem dormimos. É tentar ser um bocado coerente. Este telemóvel tem 13 anos e recuso-me a comprar um telemóvel desses (smartphone), porque sei o que custa em termos ambientais. Esses telemóveis duram actualmente nos EUA 18 meses, aqui na Europa são dois anos, dois anos e meio. As pessoas são obrigadas a mudar de telemóvel ou porque se tornou obsoleto, intencionalmente por parte de quem os fabrica, ou porque deixou de estar na moda. Se prolongar o tempo de vida daquilo que utilizo, que é o princípio da economia circular, vou precisar de menos recursos. O que faço é isto, tentar ser o mínimo consumista.
Mas em 2006 já tinha essa perspectiva?
Não, longe disso. Comecei a tê-la quando comecei a estudar, a ler. Uma pessoa começa a aperceber-se de que a humanidade está a caminhar para uma situação insustentável. Os mais ricos não abdicam do nível de vida que têm. E os países em desenvolvimento, que são actualmente 5,5 mil milhões de pessoas, têm legítimas expectativas de ter esse mesmo estilo de vida. Os chineses consumiam em 2010 12 kg de carne de vaca por ano, os europeus cerca de 30 quilos, os americanos 40. A previsão é que os chineses para o ano consumam já 20 kg. Se já estamos com um problema de escassez de recursos, imagine 11 mil milhões a consumir assim.
Têm de ser os países ricos a cortar o consumo.
As pessoas com menos recursos têm todo o direito a evoluir. E temos um histórico que nos dá uma responsabilidade acrescida. Quando se diz que a China é o maior emissor, é o maior emissor em termos absolutos anuais. Se dividir isso per capita, os chineses emitem 5 tonelada/ano e os americanos 12 toneladas por ano.
E nós?
À volta de 4,8, na média mundial. 
Come carne?
Estou a reduzir carnes vermelhas.
Faz sentido deixar de comer carne por motivos ambientais?
A área necessária para produzir cereais para alimentar o gado dava para produzir muito mais produtos vegetais. A energia gasta para produzir um quilo de carne de vaca dava para 18 quilos de pão. Agora isto depende da métrica que se faça. Diz-se que 17% a 30% dos alimentos são desperdiçados. Se conseguirmos minimizar isso a zero, a pressão é menor. As estatísticas também dizem que em média ingerimos mais do que as calorias necessárias. O homem moderno precisa de 1800, em média consomem-se 2600. Se reduzíssemos àquilo que necessitamos e evitássemos o desperdício, provavelmente não estaríamos numa situação de ter de deixar de comer carne.
Mas essas escolhas individuais que faz têm algum impacto?
É a questão se pode colocar para tudo. Quando o ministro do Ambiente diz que é possível Portugal chegar à neutralidade carbónica em 2050, sim, é interessante, mas Portugal contribui com menos de 0,1% do aquecimento global. Mas Portugal deve fazê-lo, porque 26 países como Portugal vão contribuir o mesmo que os 0,26% da Índia, ou 67 países iguais a Portugal vão contribuir o mesmo que os EUA, ou 123 países iguais a Portugal vão contribuir o mesmo que a China. O nosso contributo é pequeno, mas temos todos de participar. 
Acha que o movimento iniciado por Greta Thunberg veio mudar alguma coisa?
Sim e não. Noutro dia numa apresentação pública de um relatório da APA um engenheiro dizia “estamos a brincar”. Esta é a perceção que tenho. Se quisermos a sério temos de reduzir o consumo. 
Ela dá esse exemplo, anda de comboio. 
Sim. Tem uma argumentação sólida, fluente, fácil de captar e essa coerência. 

Mar: "Estamos a esgotar os Oceanos sem antes os conhecermos"


A 25 de maio chegou o alerta: “Se todos os países do mundo consumissem como Portugal, o cartão de crédito ambiental teria de ser accionado”. Ou seja, nesse sábado primaveril, Portugal já havia gasto todos os recursos disponíveis para o presente ano. Contas feitas, 21 dias mais cedo face a 2018.
Um alerta deixado pela Zero, associação ambientalista, que Luís Rodrigues, Director Regional das Pescas dos Açores, recordou na abertura do simpósio que decorre em Lisboa a 27 e 28 de maio, o “Sangue na Guelra”. Na sua intervenção, este responsável trouxe um olhar “sobre o maior território marítimo da Europa, os Açores” e ilustrou-o trazendo aos presentes no simpósio uma imagem com uma espécie destas águas atlânticas, “o Atum Rabilho. Uma das espécies mais emblemáticas da região. Constatámos que, a cada ano, se estava a pescar metade daquilo que se capturava no ano anterior. Acresce que 85% das embarcações de pesca açorianas são licenciadas para a pesca do atum. Menos pesca traz um enorme impacto nas famílias”, sublinhou Luis Rodrigues, recordando o efeito de escala: “Temos três fábricas que ocupam 900 pessoas”. Havia que descobrir as razões para esta quebra do recurso marinho. E, aqui, a narrativa entronca na questão da sobrepesca.
“Nos últimos anos entraram cerca de 500 operadores da pesca do cerco no Atlântico. Nos Açores, a pesca do atum faz-se com salto e vara”. Em suma, como sublinhou o Director Geral, “num só lance de pesca do cerco podem vir à rede 300 toneladas de atum, tanto quanto os Açores capturam num ano com o método tradicional. Tínhamos de dar o alerta. Há que recordar que falamos de uma espécie migratória, não é um recurso existente todo o ano nas águas nacionais”.
“Fizemos um memorando em diferentes línguas e no encontro anual da entidade que faz a gestão internacional do atum estive presente. São reuniões intensas, com mais de 50 países à volta de uma mesa, todos eles defendendo uma cota. Quando, finalmente, consegui chegar ao debate, descobri que a mesma pessoa que representava a pesca de lance nos Açores era a que representava o cerco. Fiz, então, lobby com organizações ambientais. Tivemos um encontro internacional de pesca de salto e vara [Conferência Internacional sobre Pesca de Atum de Salto e Vara, decorrido em 2017]”.
Um episódio que deu a Luís Rodrigues pretexto para trazer ao auditório reunido em Lisboa, um retrato sobre os “oceanos, o maior reservatório de água do planeta. Devemos pensar no ciclo da água. A que temos dentro da garrafa que seguramos na mão esteve no oceano. Este dá-nos oxigénio, o oceano purifica o ar. É, também, a fonte de proteína selvagem. Oitenta por cento das espécies do planeta vivem neste habitat. Conhecemos apenas 10% deste meio. Estamos a esgotar os oceanos sem antes os conhecermos”.
“A cada dez anos, a política para a pesca altera-se. Uma parte das regras chega-nos de Bruxelas. Porque alteramos a política a cada década? Porque há nova tecnologia, novos pescadores, novos barcos”, substancia Luís Rodrigues para, depois responsabilizar todos os cidadãos: “A cada década, todos nós somos convidados a participar na construção dessas regras. A ferramenta que agiliza o processo de discussão chama-se ´Livro Verde da Reforma da Política Comum das Pescas`. No último livro era referido que 90% dos recursos marinhos estão sobrexplorados. Repare-se, um quarto do que se pesca na Europa é para fazer farinha para alimentar animais domésticos. Um quinto do que se pesca no Velho Continente é acidental e rejeitado. Trinta porcento dos ecossistemas marinhos na Europa estão colapsados, não voltarão a ser o que eram”.
Para o orador, “temos, enquanto consumidores, de garantir a mudança. Variar as espécies de peixe consumidas. A maioria das pessoas consome as mesmas quatro ou cinco espécies marinhas”.
“Em 2001 discutia-se a política de pescas e corríamos o risco de perder uma parte do território marítimo português, passando para a gestão de Bruxelas. Eu não via essa discussão pública acontecer. Quisemos levar a questão à Assembleia da República. Tínhamos de reunir 75 mil assinaturas. As pessoas não compreendiam a real dimensão do que estava a acontecer. Na Universidade, pedi aos meus alunos que desenhassem Portugal. Desenhavam terra, mas esqueciam-se de toda a Zona Económica Exclusiva Nacional. Ou seja, nós não incorporámos o mar no nosso imaginário como um território que é nosso”.
Luís Rodrigues desmistificou o mar dos Açores: “Ao contrário do que se imagina, nós temos muito pouco peixe. Porquê? Porque a maior parte do peixe precisa de um fundo com luz. Nós, nos Açores, temos um mar abissal, com mais de três mil metros de profundidade. Pescamos na orla das ilhas e locais que já foram ilhas, erodiram-se, tornando-se bancos de pesca”.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Cientistas descobrem um gigante aterro de lixo no Mar Mediterrâneo


Bonecas, pedaços de sanitas, móveis, barcos, colchões, mesas, árvores de Natal, roupas, pneus, tijolos, tapetes e até um carro inteiro. E plástico, muito plástico. As imagens obtidas por um robot de exploração submarina revelaram um verdadeiro aterro subaquático onde se pode encontrar quase todo o tipo de lixo, em pleno Mar Mediterrâneo. E as consequências ambientais são imprevisíveis, porém garantidas.
“Parece uma sequência de um filme pós-apocalíptico, mas na realidade é o fundo do Mediterrâneo”, escreve o “El País” num artigo desta terça-feira, 21 de maio.
Numa extensa reportagem, o jornal espanhol cita um estudo do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália (CNR) e da Universidade de Roma La Sapienza, que foi disponibilizado nos “Scientific Reports” da plataforma “Nature” no final do mês de março.

De acordo com o “El País“, uma equipa de investigadores encontrou em Itália a maior concentração de lixo já registado em águas profundas em qualquer lugar no mundo. O depósito está no Estreito de Messina, que separa a ilha da Sicília da região da Calábria e a concentração de resíduos é “surpreendente”.
O robot submersível POLLUX III foi registando em imagens o que encontrava e percebeu-se que, quanto maior a profundidade, mais desperdício havia. E a situação é mais preocupante porque ele tinha um limite de descida até aos 600 metros, suspeitando os cientistas de que se tivesse ido mais fundo teria encontrado mais lixo.
Quanto aos resíduos encontrados, o maior foi o plástico, seguido de material de construção, vestuário e metal.

Os cientistas relatam que viram ouriços-do-mar e os peixes a usar o lixo como refúgio e alertam para um tipo de contaminação pouco estudada.
A equipa vai agora analisar o impacto que estes desperdícios podem ter sobre a vida selvagem. “O plástico pode durar até 500 anos no mar e é uma fonte de poluentes orgânicos persistentes que são tóxicos para a fauna marinha e que podem acumular-se nos seus tecidos”, explicam.
Quanto às causas, a má gestão de resíduos na Sicília e na Calábria pode explicar grande parte do problema, mas o Mediterrâneo é também conhecido como um mar predisposto a acumular resíduos, por criar uma bacia quase fechada. E por ter grandes cidades à volta e uma troca limitada de águas.
Em 2017, a Organização Não Governamental WWF já tinha publicado um relatório alarmante sobre o aumento da poluição no Mar Mediterrâneo devido ao turismo em massa e à exploração dos recursos marinhos. A WWF explicou então que as espécies marinhas viram as suas populações diminuírem, com 41 por cento menos mamíferos marinhos e 34 por cento menos peixes do que há 50 anos. Em termos de flora, as ervas marinhas sofreram 34 por cento de degradação no mesmo período de tempo e os corais estão ameaçados de extinção. 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Aumento do nível do mar pode ter "consequências graves"


Os estudos apontavam para que a subida do nível do mar fosse pouco menos de um metro até 2100. Mas um novo estudo prevê que o nível real poderá ser o dobro desse número. O que a acontecer levará à deslocação de centenas de milhões de pessoas.
A questão do aumento do nível do mar foi uma das questões mais controversas levantadas pelo Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas, quando publicou o seu quinto relatório de avaliação em 2013. Esse organismo afirmou, na altura, que o aquecimento global, sem grandes reduções nas emissões, aumentaria o nível do mar para os 52 cm e 98 cm até 2100.
Para tentar hoje obter uma imagem mais clara do que irá acontecer, alguns dos principais investigadores da área realizaram um estudo estruturado, em que fazem previsões baseadas no seu conhecimento e compreensão sobre o que está a acontecer na Gronelândia, a Oeste e Leste da Antártida.
Na opinião destes investigadores, se as emissões se mantiverem na mesma trajetória, os oceanos provavelmente subirão 62 cm e 238 cm até 2100. Isto seria um cenário num mundo que terá aquecido em mais 5ªC, um dos piores cenários para o aquecimento global.
"Para 2100, a contribuição da camada de gelo é muito provável na faixa de 7-178 cm, mas uma vez se adiciona geleiras e calotas de gelo fora das camadas de gelo e expansão térmica dos mare", disse o autor Jonathan Bamber, da Universidade de Bristol.

"Para colocar isso em perspectiva, a crise de refugiados na Síria resultou em cerca de um milhão de refugiados que chegaram à Europa", disse o professor Bamber. "Isso é cerca de 200 vezes menor do que o número de pessoas que seriam deslocadas com um aumento de 2 milhões no nível do mar"

O manto de gelo da Gronelândia continua a ser o maior contribuinte para a subida no nível do mar, mas à medida que as temperaturas vão subindo, as camadas de gelo da Antártida, muito maiores, começam a entrar em acção."Os especialistas acreditam que há uma probabilidade pequena, mas estatisticamente significativa, de que a Antártida Ocidental faça a transição para um estado muito instável e partes da Antártida Oriental também contribuam", disse o professor Bamber.
Segundo os especialistas, este cenário teria enormes implicações para o planeta. Calculam que o mundo perderia uma área de terra equivalente a 1,79 milhão de quilómetros quadrados, o equivalente ao tamanho da Líbia. Muitas perdas de terra estariam em importantes partes de cultivo de alimentos, como o Delta do Nilo. Mas também grandes áreas como o Bangladesh seriam afectadas e difíceis que ser habitáveis. Outras cidades como Londres, Nova Iorque e Xangai estariam sob ameaça.
"Para colocar isso em perspetiva, a crise de refugiados na Síria resultou em cerca de um milhão de refugiados que chegaram à Europa", disse o professor Bamber. "Isso é cerca de 200 vezes menor do que o número de pessoas que seriam deslocadas com um aumento de 2 milhões no nível do mar."

Uma fralda deitada hoje ao mar ainda lá estará daqui a 400 anos


De acordo com a organização Safety 4 Sea, citada pela Green Innovation em comunicado enviado à redação, os cotonetes que usa diariamente demoram, em média, cinco meses a serem decompostos. Já os cigarros e as palhinhas de plásticos demoram um pouco mais. Os cigarros carecem de um a 10 anos e as palhinhas entre 10 a 20 anos.
Se considera estes números preocupantes, então atente nos próximos indicadores. O alumínio precisa, em média, de 200 anospara ser decomposto e as fraldas descartáveis usadas pelas crianças carecem de 450 anos. Por fim, quanto ao óleo de cozinha não foi possível determinar o período temporal necessário.
De salientar que entre os dias 4 e 8 de junho, Lisboa irá acolher o evento '7 Seas Summit' - o primeiro Summit dedicado à Economia Azul. Neste evento vai marcar presença 12 'startups' com soluções focadas no mar.

domingo, 19 de maio de 2019

Competição premia atletas por recolherem lixo espalhado pelo oceano


A limpeza das praias e dos oceanos deve ser uma acção colectiva, realizada por qualquer um que frequente os ambientes. Para estimular a recolha de resíduos no meio ambiente, uma competição tomará conta da praia Catalans et l’Escale Borely, em Marselha, na França. Chamada de Le Grand Défi (O Grande Desafio, em português), a disputa acontecerá no dia 30 de maio de 2019 e a grande tarefa dos participantes é recolher a maior quantidade de lixo acumulado na região.

A ideia veio de Emmanuel Laurin, atleta francês fundador da Sauvage, uma organização em prol do meio ambiente. Em 2017, ele cobriu 120 quilómetros da costa do país, de Marselha a Toulon, recolhendo o lixo espalhado pelo Mar Mediterrâneo.

Agora o activista desafia 20 equipas de nadadores e caiaquistas a percorrer os oito quilómetros da praia durante um ano. Por serem amadores, os participantes serão acompanhados por profissionais, como o jogador de basquetebol Pierre Pelos e as nadadoras Margaux Chrétien e Camille Lacourt.

Os prémios serão divididos em três categorias: o primeiro para quem encontrar mais lixo, o segundo para quem achar os resíduos mais incomuns e o terceiro para aqueles que encontrarem o "Grand Saphir", um objecto feito de plástico reciclado escondido ao longo do percurso. Obrigatoriamente, os vencedores devem doar a quantia recebida para uma organização de protecção ambiental, escolhida pela equipa.

Apesar de ser realizada na França, a competição é um exemplo para o resto do mundo. De acordo com uma pesquisa comandada pela  Associação Internacional de Resíduos Sólidos (Iswa), 25 milhões de toneladas de lixo são despejadas nos oceanos anualmente. 

Os peixes do mar profundo podem distinguir cores na escuridão quase total


A visão da maioria dos vertebrados é determinada por dois tipos de células na retina: os cones e os bastonetes. Os cones distinguem cores, mas funcionam apenas quando há iluminação suficiente. Por outro lado, os bastonetes podem detetar a luz visivelmente escassa, mas fazem-nos em preto e branco, porque usam apenas um tipo da proteína opsina RH1.

Ao estudar 101 espécies da zona mesopelágica, que se estende entre 200 e mil metros abaixo da superfície do oceano, os biólogos descobriram que quatro delas têm genes que aumentam – até 5, 6, 18 e 38 – a quantidade de variantes da RH1 nos bastonetes. A presença de vários tipos dessa proteína possibilita a essas células ver cor.
“O número máximo, registado no Diretmus argenteus,é impressionante”, disse Megan Porter, uma bióloga evolutiva, à Science News. No entanto, não se pode confirmar que essas quatro espécies realmente possam ver cores, admite a principal autora do estudo publicado na revista Science, Zuzana Musilová.
Tendo em conta a diferença de pressão entre a superfície e a zona mesopelágica, os peixes provavelmente não sobrevivem se forem extraídos das profundidades, por isso não podem ser testados. “Mesmo trazê-los à superfície vivos não garante que se comportariam da mesma maneira do que nas profundezas”.
No geral, os autores são “cautelosos” em não alegar que os peixes de águas profundas conseguem ver cores, disse Almut Kelber, da Universidade de Lund, na Suécia, que estudou a visão de cores com pouca luz em rãs.
Os novos resultados de peixe não dizem se diferentes opsinas RHI se agrupam em células bastonetes individuais ou se estão dispersas, com diferentes células bastonetes a carregar diferentes opsinas. Para diferenciar as cores, as opsins da haste precisariam de estar em células diferentes. Mas se as proteínas se acumulam em cada haste, os peixes aumentam a sensibilidade à luz e podem escolher objectos mais fracos em tons de preto e branco.

Acelerador da Economia do Mar recebeu 87 inscrições de 29 países


O ‘Bluetech Accelerator Ports & Shipping 4.0’ recebeu um total de 87 inscrições, de 29 países diferentes. Este projecto tem como principal desígnio a criação de um ecossistema de inovação na Economia do Mar portuguesa.

“Pretende-se identificar, seleccionar e capacitar as ‘startups’ com modelos de negócios sustentáveis e com potencial de integração de pilotos junto dos grandes ‘players’ nacionais e internacionais da ‘Economia Azul’, numa iniciativa que está a ser liderada pela Direcção-Geral da Política do Mar (DGPM) e pela plataforma de inovação Beta-i”, explica um comunicado do Ministério do Mar.
Depois de encerradas as inscrições, para este acelerador, Portugal e os Estados Unidos são os países mais representados, com 13 ‘startups’ cada, seguidos pela Índia, com 10, e pela Alemanha e Reino Unido, com 5 e 4, respetivamente.
“Estes números dizem muito do alcance internacional desta iniciativa, ao mesmo tempo que ajudam a projectar Portugal como país inovador na área da Economia do Mar em vários mercados”, destaca o referido comunicado.
O mesmo documento acrescenta que, “se olharmos para o quadro de objectivos do ‘Bluetech’, reparamos que o espaço destinado à ‘Gestão de Desempenho de Carga e Frotas’ atraiu 38% das candidaturas, seguido do desafio ‘Sustentabilidade Ambiental’, com 33%”.
Por seu turno, o desafio ‘Optimização de Processos em Terra’ mereceu 31% das candidaturas, o mesmo que o outro tema, centrado na ‘Conectividade de Navegação do Futuro’.
A fase de candidaturas arrancou a 4 de março e estendeu-se até ao dia 19 de abril.
“A fase de selecção, que envolve todos os parceiros, decorre agora, até ao dia 17 de maio, havendo lugar a um evento com o ‘pitch’ das 40 melhores candidaturas inserido no ‘European Maritime Day’, em Lisboa, acrescenta o comunicado do Ministério do Mar.
Mais tarde, decorrerá um ‘bootcamp’ de cinco dias, que terá início dia 24 de Junho, com as ‘startups’ selecionadas para entrar na fase de pilotagem a serem conhecidas dia 28 de junho.
O fim do programa ocorrerá em outubro, que culmina com o ‘Demo Day’, onde as soluções encontradas e os resultados conhecidos serão apresentadas publicamente.
Esta iniciativa tem como promotor o Ministério do Mar, através da Direção Geral de Política do Mar (DGPM), e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), contando com a parceria dos portos de Leixões e de Sines, Grupo ETE, Grupo Portline, Inmarsat e Tekever, sendo o programa implementado pela Beta-i.
“Estes parceiros participarão no processo de seleção e financiamento do conjunto de ‘startups’ vencedoras, que se conhecerão no último trimestre de 2019. O programa terá a bordo cruciais ‘players’ do sector marítimo-portuário, provando que a ‘aceleração azul’ da Economia do Mar é uma aposta capaz de mobilizar o interesse e a motivação das empresas que encabeçam o sector”, destaca o comunicado do ministério liderado por Ana Paula Vitorino.
Temas como a ‘Big Data’, Internet das Coisas (IoT), Automatização e Robotização dos Portos, Sistemas Autónomos, ‘Smart Shipping’ ou Vigilância Marítima “são algumas tendências com potencial de disrupção no setor marítimo-portuário nacional, e são algumas das áreas onde este programa se vai foca”r.
A iniciativa ‘Bluetech Accelerator’ faz parte do ‘Programa Ocean Portugal’, desenvolvido em conjunto pelo Ministério do Mar e pela FLAD, que visa desenvolver a inovação azul e empreendedorismo.
“Vem ainda responder a uma das diretrizes estratégicas do Governo, que visa aumentar o peso da Economia do Mar Sustentável no PIB nacional e que passa pela implementação de políticas e iniciativas que estimulem o aumento da intensidade tecnológica, da sustentabilidade e da sofisticação dos modelos de negócio da economia azul”, conclui o referido comunicado.


Economia do mar emprega quase 181 mil pessoas em Portugal

O turismo costeiro – que contribuiu com 74% para o total de empregos nas actividades ligadas ao mar e por 66% dos lucros em 2017 –, e os recursos vivos são os principais motores das atividades económicas nacionais ligadas aos mares e oceanos, segundo um estudo da Comissão Europeia divulgado na passada quinta-feira.



A economia do mar emprega cerca de 180.900 pessoas em Portugal e gera quase 4,1 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB), de acordo com o relatório “Blue Economy 2019”, elaborado pela Comissão Europeia e apresentado por ocasião do Dia Marítimo Europeu, que decorre em Lisboa. O turismo costeiro, que, em 2017, contribuiu com 74% para o total de empregos e para 66% dos lucros na economia azul, bem como os recursos vivos são os principais motores das actividades económicas nacionais associadas aos mares e oceanos.

Apesar de o VAB da economia azul portuguesa ter diminuído entre os anos de 2009 e 2012, acabou por, entretanto, aumentar de forma acentuada e atingir o seu nível mais elevado em 2017. Só a quota deste valor no Produto Interno Bruto (PIB) nacional cresceu 30% durante esse mesmo período.

Em 2016, os números eram significativamente inferiores. Segundo um estudo das consultoras EY e Augusto Mateus & Associados, promovido pelo BCP, as fileiras-chave da economia azul (pesca, aquicultura e indústria do pescado; transportes marítimos, portos e logística; construção, manutenção e reparação naval; turismo e lazer ligado ao mar) davam trabalho a 99,4 mil pessoas no país e geravam um volume de negócios de 7,5 mil milhões de euros. “O salário médio dos empregos do setor da economia azul em 2016 foi de 12.700 euros, um decréscimo de 3% face aos valores de 2009”, aponta, por sua vez, a análise de Bruxelas, divulgada esta manhã.
O Dia Marítimo Europeu, estabelecido em 2008, representa um ponto de encontro anual para profissionais, empresários e líderes políticos ligados aos mares e oceanos. A capital portuguesa recebeu ao longo de dois dias, mais de 1.400 participantes de 53 países, mais de uma centena de oradores, 28 workshops e 21 pitchs. Bruxelas escolheu Portugal para receber a edição de 2019 deste evento, este ano focado essencialmente em impulsionar a economia marítima sustentável através do empreendedorismo, do investimento, da investigação e da inovação.

Nestas salinas portuguesas pode boiar como no Mar Morto


Portugal tem destinos incríveis e multifacetados, que podem dar bons programas de fim de semana, sobretudo nos meses do verão. Segundo a Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos há cinco salgados (conjuntos de salinas) no País. E em dois deles estão piscinas salgadas, abertas ao público.
As salinas de Aveiro situam-se na Ria de Aveiro. Têm uma junção de água doce dos rios Vouga e Antuã e de água salgada oceânica. Ali, o sal é extraído através de um método milenar ainda hoje utilizado nas marinhas de sal activas.
Na Marinha Grã-Caravela, entre 15 de julho e 15 de setembro, as salinas de Aveiro abrem as portas para os “Banhos Salgados”. A actividade decorre numa piscina feita com as lamas que constroem a marinha.
A água é extremamente salina, o que permite boiar numa experiência descrita por muitos como similar à do Mar Morto. Além disso, os nutrientes e minerais presentes na água e na lama são benéficos para a circulação sanguínea e hidratação da pele.
“Estamos abertos todo o ano, mas a piscina funciona apenas no verão por causa das condições meteorológicas, uma vez que quando chove a salinidade da água baixa e a experiência fica comprometida”, explica Filipe Magalhães, gestor de projetos das Salinas de Aveiro.
Está aberta das 10 às 19 horas, dependendo do clima. O acesso aos banhos salgados custa 4€ por pessoa para um dia inteiro (pode sair e regressar no mesmo dia). Já a salina em si está aberta todos os dias de março a outubro. No inverno encerra à segunda-feira.
Uma vez que o espaço tem capacidade limitada e muita afluência (ultrapassaram as dez mil visitas em 2018), aconselha-se a reserva antecipada por telefone, 234 056 149, ou email, visitas@salinasaveiro.com. Até porque há muito para fazer neste complexo.
Pode conhecer as salinas numa visita guiada individual ou em grupo. Cada uma dura uma hora e ficará a saber toda a história e segredos das marinhas, bem como o processo de extração do sal. Há passeios diários às 11 e às 15 horas. Os miúdos pagam 2€ e os adultos 5€ numa visita individual ou 3€ em grupo.
Há ainda a possibilidade de se ser marnoto (trabalhador das salinas) por um dia. Durante a manhã os participantes fazem a recolha do sal, podendo depois levá-lo para casa. A meio do dia há uma visita guiada. E, ao final do dia, é a altura para a apanha da flor de sal. A actividade, para toda a família, custa 25€ por pessoa mais 10€ para o almoço.

Uma das ilhas mais remotas do mundo está a afogar-se num mar de plástico




De acordo com um estudo publicado na revista Scientific Reports, as praias remotas encontradas nas ilhas do Oceano Índico estão repletas com cerca de 414 milhões de resíduos de plástico com cerca de 238 toneladas – incluindo quase um milhão de sapatos e 373 mil escovas de dentes.
“Ilhas como estas são como canários numa mina de carvão e é cada vez mais urgente que ajamos em relação aos alertas que nos estão a dar”, disse a autora do estudo, Jennifer Lavers, em comunicado. “A poluição plástica é agora omnipresente nos nossos oceanos e as ilhas remotas são o lugar ideal para obter uma visão objetiva do volume de detritos plásticos que circulam pelo globo”.
De acordo com o IFL Science, Jennifer Lavers esteve nas manchetes dos jornais quando revelou que a Ilha Henderson, uma das mais remotas ilhas do Oceano Pacífico, estava envolvida em lixo plástico. Praticamente intocada pelos humanos, o atol do Património Mundial da UNESCO tem a maior densidade de plástico do que qualquer lugar da Terra.
“A nossa estimativa de 414 milhões de peças com um peso de 238 toneladas na Ilha dos Cocos é conservadora, já que apenas amostramos uma profundidade de dez centímetros e não pudemos aceder algumas praias conhecidas como locais de destroços“, disse Lavers, acrescentando que ilhas remotas sem grandes populações humanas para depositar lixo destacam a extensão da circulação de plástico nos oceanos do planeta.
Aproximadamente um quarto de todos os plásticos estudados ​​eram itens de uso único. Já 93% dos detritos estavam enterrados até dez centímetros abaixo da superfície do solo.

sábado, 11 de maio de 2019

Descobertos mais de 200 mil vírus desconhecidos nas profundezas dos oceanos



Os oceanos escondem todos os tipos de segredos e incógnitas nas profundezas – como os 195.728 vírus que os cientistas acabaram por encontrar durante uma expedição para avaliar a vida marinha.

Antes disso, só sabíamos definitivamente da existência de cerca de 15 mil desses vírus oceânicos. Os investigadores dizem que as descobertas podem ensinar mais sobre tudo: desde a evolução da vida no planeta até as consequências da mudança climática.
A investigação é baseada em amostras recolhidas entre 2009 e 2013 por uma tripulação a bordo da Tara, uma embarcação que passou mais de uma década na água a investigar a ciência do oceano e as pistas que nos pode dar sobre como o nosso mundo está a evoluir.
“Vírus são pequenas coisas que nem se consegue ver, mas como estão presentes em números tão grandes, realmente importam”, disse um dos integrantes da equipa, Matthew Sullivan, da Ohio State University.
“Desenvolvemos um mapa de distribuição que é fundamental para quem quer estudar como os vírus manipulam o ecossistema. Houve muitas coisas que nos surpreenderam com as nossas descobertas”.
Apesar do grande número de vírus descobertos e da vasta complexidade das regiões oceânicas do mundo, a equipa conseguiu dividir os vírus em cinco zonas ecológicas distintas – todas as profundezas do Ártico e da Antártica, e três profundidades distintas do temperado e regiões tropicais.
Na verdade, o Oceano Ártico – onde os investigadores não esperavam a maior biodiversidade – acabou por ser um inesperado ponto de vida. Tudo isto contribui para a nossa compreensão sobre como os vírus se espalham pelo planeta.
Os cientistas estimam que existem muitas dezenas de milhões de vírus no oceano, muitos dos quais podem existir fora da água também – e até mesmo nos nossos próprios corpos. Ser capaz de identificar mais pode ensinar mais sobre a própria vida, não apenas sobre a vida submersa.
Para os propósitos deste estudo, além de detetar novos vírus encontrados em amostras de água de profundidades de até quatro mil metros, os investigadores também identificaram, segundo o estudo publicado na revista Cellnovas linhagens ao analisar outros micróbios e seres vivos que se instalaram nos oceanos.
A abrangência da nova investigação também é importante porque ajuda os cientistas a calcular com mais precisão o balanço de oxigénio e dióxido de carbono na atmosfera – organismos marinhos ajudam a reciclar oxigénio, enquanto os oceanos absorvem e armazenam muito CO2.
Mais vida abaixo da superfície da água significa mais CO2 convertido em carbono orgânico e biomassa, armazenado no fundo do mar – em vez de CO2 a acidificar os oceanos e a matar a vida marinha.
“Ter um novo mapa de onde os vírus estão localizados pode ajudar a entender essa bomba de carbono oceânico e, mais amplamente, a biogeoquímica que afeta o planeta”, disse Sullivan. “Modelos anteriores de ecossistemas oceânicos geralmente ignoram micróbios e raramente incluem vírus, mas agora sabemos que são um componente vital”.

Cientistas descobrem nova forma de vida no fundo oceânico



O elemento químico arsénio é tóxico para quase todas as formas de vida, mas agora investigadores da Universidade de Washington revelaram que alguns micróbios no oceano Pacífico não só toleram a substância, mas também a respiram activamente.
Em ambientes onde não há muito oxigénio disponível, algumas criaturas evoluíram para fazer uso de outros elementos, geralmente nitrogénio ou enxofre.
Neste caso, trata-se de uma certa parte do oceano. Esta é a primeira vez que investigadores detectam micróbios que respiram arsénio na água do mar.
A equipa da Universidade de Washington em Seattle acredita que essa descoberta poderia ajudar a entender como a vida no oceano continuará mudando perante as mudanças climáticas: se o oxigênio subaquático se tornar escasso de novo, os ecossistemas poderão ter que se adaptar.
"Nós sabemos há muito tempo que existem níveis muito baixos de arsénio no oceano", revelou a oceanógrafa Gabrielle Rocap, uma das participantes da equipa, citada pelo portal Phys.org. "Mas a ideia de que os organismos podem usar arsénio para 'ganhar a vida' é um metabolismo inteiramente novo em mar aberto."
Os microrganismos resistentes foram descobertos perto da costa do México, em uma área de água classificada como anóxica, ou seja, quase sem oxigênio disponível.
Microrganismos que consomem arsénio podem representar apenas cerca de 1% da comunidade microbiana marinha, mas aprender mais sobre eles pode ajudar-nos a entender as complexas reacções químicas que ocorrem no oceano.